Portuguese poem
Dona Maria e Dom Arico
by Sílvio Romero (1851–1914)
O que é isto que aqui está No pino da meia noite? Si tu és alma em pena Remédio te quero dar, Si és cousa doutro mundo Quero-te desconjurar. "Eu não sou alma em pena Para vós remédio me dar, Nem sou cousa doutro mundo Para vós me desconjurar. Lá de trás daquela esquina Estão sete a vos esperar.
—Pelos sete que lá estão Meu pé atrás não voltaria, Dom Arico há de cear Em casa de Dona Maria. Não jogo jogo de bala Qu'é jogo de covardia, Jogo com jogo de espada Qu'é jogo de valentia. Dom Arico matou seis; Ficou um por mais somenos, Dele conta não fazia. Este atirou-lhe uma bala Da mais alta que havia, A bala caiu no peito E o peito lhe feria, Dom Arico foi cair Na porta de Dona Maria; Pelos ais e os gemidos Acordava quem dormia.
—O que não dirão agora? Que mataram este coitado, Que morreu de mal de amores, Que é um mal desesperado! Si me acharem aqui morto Não me enterrem no sagrado; Me enterrem em campo de rosas Das quais eu fui namorado. Trazei papel, trazei tinta, Trazei vossa escrevaninha, Eu quero escrever saudades No vosso peito, Maria.