Portuguese poem
II (Esprema a vil calúnia muito embora)
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Esprema a vil calúnia muito embora Entre as mãos denegridas e insolentes Os venenos das plantas E das bravas serpentes.
Chovam raios e raios; no meu rosto Não hás de ver, Marília, o medo escrito: O medo perturbador, Que infunde o vil delito.
Podem muito, conheço, podem muito As Fúrias infernais que Pluto move; Mas pode mais que todas Um dedo só de Jove.
Este Deus converteu em flor mimosa, A quem seu nome dera, a Narciso; Fez de muitos os Astros, Qu'inda no Céu diviso.
Ele pode livrar-me das injúrias Do néscio, do atrevido ingrato povo; Em nova flor mudar-me, Mudar-me em Astro novo.
Porém se os justos Céus, por fins ocultos, Em tão tirano mal me não socorrem, Verás então que os sábios Bem como vivem, morrem.
Eu tenho um coração maior que o mundo! Tu, formosa Marília, bem o sabes: Um coração... e basta, Onde tu mesma cabes.