Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga II (Pintam, Marília, os Poetas)

Portuguese poem

II (Pintam, Marília, os Poetas)

by (1744–1810)

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Pintam, Marília, os Poetas A um menino vendado Com uma aljava de setas, Arco empunhado na mão; Ligeiras asas nos ombros, O tenro corpo despido, E de Amor, ou de Cupido, São os nomes que lhe dão.

Porém eu, Marília, nego, Que assim seja Amor; pois ele Nem é moço, nem é cego, Nem setas, nem asas tem. Ora pois, eu vou formar-lhe Um retrato mais perfeito, Que ele já feriu meu peito; Por isso o conheço bem.

Os seus compridos cabelos, Que sobre as costas ondeiam, São que os de Apolo mais belos; Mas de loura cor não são. Têm a cor da negra noite; E com o branco do rosto Fazem, Marília, um composto Da mais formosa união.

Tem redonda e lisa testa, Arqueadas sobrancelhas; A voz meiga, a vista honesta, E seus olhos são uns sóis. Aqui vence Amor ao Céu, Que no dia luminoso O Céu tem um Sol formoso, E o travesso Amor tem dois.

Na sua face mimosa, Marília, estão misturadas Purpúreas folhas de rosa, Brancas folhas de jasmim. Dos rubins mais preciosos Os seus beiços são formados; Os seus dentes delicados São pedaços de marfim.

Mal vi seu rosto perfeito Dei logo um suspiro, e ele Conheceu haver-me feito Estrago no coração. Punha em mim os olhos, quando Entendia eu não olhava: Vendo o que via, baixava A modesta vista ao chão.

Chamei-lhe um dia formoso: Ele, ouvindo os seus louvores, Com um gesto desdenhoso Se sorriu, e não falou. Pintei-lhe outra vez o estado, Em que estava esta alma posta; Não me deu também resposta, Constrangeu-se e suspirou.

Conheço os sinais, e logo Animado de esperança, Busco dar um desafogo Ao cansado coração. Pego em teus dedos nevados, E querendo dar-lhe um beijo, Cobriu-se todo de pejo, E fugiu-me com a mão.

Tu, Marília, agora vendo De Amor o lindo retrato, Contigo estarás dizendo Que é este o retrato teu. Sim, Marília, a cópia é tua, Que Cupido é Deus suposto: Se há Cupido, é só teu rosto, Que ele foi quem me venceu.