Portuguese poem
IX (Eu sou, gentil Marília, eu sou…)
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Eu sou, gentil Marília, eu sou cativo; Porém não me venceu a mão armada De ferro e de furor: Uma alma sobre todas elevada Não cede a outra força que não seja A tenra mão de Amor.
Arrastem pois os outros muito embora Cadeias nas bigornas trabalhadas Com pesados martelos: Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas Com duros ferros, não; com fios d'ouro, Que são os teus cabelos.
Oculto nos teus meigos vivos olhos Cupido a tudo faz tirana guerra: Sacode a seta ardente, E sendo despedida cá da terra As nuvens rompe, chega ao alto Empíreo: E chega ainda quente.
As abelhas nas asas suspendidas Tiram, Marília, os sucos saborosos Das orvalhadas flores: Pendentes dos teus beijos graciosos O mel não chupam, chupam ambrosias Nunca fartos Amores.
O Vento quando parte em largas fitas As folhas, que meneia com brandura; A fonte cristalina, Que sobre as pedras cai de imensa altura; Não forma um som tão doce como forma A tua voz divina.
Em torno dos teus peitos que palpitam Exaltam mil suspiros desvelados Enxames de desejos; Se encontram os teus olhos descuidados, Por mais que se atropelem, voam, chegam; E dão furtivos beijos.
O Cisne, quando corta o manso largo, Erguendo as brancas asas e o pescoço; A Nau, que ao longe passa Quando o vento lhe enfuna o pano grosso, O teu garbo não tem, minha Marília, Não tem a tua graça.
Estima pois os mais a liberdade; Eu prezo o cativeiro: sim, nem chamo À mão de amor ímpia: Honro a virtude, e os teus dotes amo: Também o grande Aquiles veste a saia, Também Alcides fia.