Portuguese poem
Iii
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Por Deus vos digo, romeiro, Que vos queirais levantar; Minhas mãos não são reliquias, Basta de tanto beijar!»
O romeiro não se erguia, As mãos não lhe quer largar; Os beijos uns sobre os outros Que era um nunca acabar.
Ia a infadar-se a rainha, Ouviu-o a soluçar, E as lagrymas, quatro e quatro, Nas mãos sentia rollar:
--«Que tem o bom do romeiro Que lhe dá tanto pezar? Diga-me las suas penas Se lh'as posso alliviar.»
--«Minhas penas não são minhas, Que aos mortos morre o penar: Mas a vida que eu perdi Em vós podia incontrar.
«Minhas penas não são minhas, Senão vossas, mal pezar! Que uma rainha christan Feita moira vim achar...»
--«Romeiro não tomeis coita Por quem se não quer coitar: Do que fui ja me não lembro, O que sou não me é dezar.
«Deus terá dó da minha alma, Que meu não foi o peccar; E a esse traidor Ramiro As contas lhe hade tomar.»
--«Pois não espereis, senhora, Por Deus que póde tardar: Dom Ramiro aqui o tendes, Mandae-o ja castigar.»
Em pé está Dom Ramiro, Ja não ha que disfarçar: Aquellas barbas tam brancas Cahiram de um impuxar;
O bordão e a esclavina A terra foram parar: Não ha ver mais gentilezas De meneio e de trajar.
Quem viu olhos como aquelles Com que o ella está a mirar! Quem passou ja transes d'alma Como ella está a passar?
Um tremor que não é mêdo, Um surriso de infiar, Vergonha que não é pejo, Faces que ardem sem corar...
Tudo isso tem no semblante, Tudo lhe está a assomar Como ondas que vão e véem Na travessia do mar.
A vingança é o prazer do homem; Da mulher, é seu manjar: Assim perdoa elle e vive, Ella não--que era acabar.
Vingar-se foi o primeiro E o derradeiro pensar Que, entre tantos pensamentos, Em Gaia estão a pullar:
Logo depois a vaidade, O gôsto de triumphar N'um coração que foi seu, Que seu lhe torna a voltar.
E o rei moiro estava longe C'os seus no monte a caçar, Ella so n'aquella tôrre... Prudencia e dissimular!
Abre a bôcca a um surriso Doce e triste--de matar! Tempéra a chamma dos olhos, Abafa-a por mais queimar.
Poz na voz aquelle incauto Que--ou minta ou não, é fatal. E, com o inferno no seio, Falla o ceo no seu fallar.
Ja os amargos queixumes Se imbrandecem no chorar, E em sua propria justiça Com arte finge affrouxar.
Protesta a bôcca a verdade: «Que não hade perdoar...» Mas a verdade dos labios Os olhos querem negar.
De joelhos Dom Ramiro Alli se estava a humilhar, Supplíca, roga, promette... Ella parece hesitar.
Senão quando uma bozina Se ouviu ao longe tocar... A rainha mal podia O seu prazer disfarçar:
--«Escondei-vos, Dom Ramiro, Que é chegado Alboazar; Depressa, n'este aposento... Ou ja me vereis matar.»
Mal a chave deu tres voltas, Na manga a foi resguardar; Mal tirou a mão da cotta, Que o rei moiro vinha a entrar.
--«Tristes novas, minha Gaia, Novas de muito pezar! Primeira vez em tres annos Que me succede este azar!..
«Toquei a minha bozina Ás portas, antes de entrar, E não correste ás ameias Para me ver e saudar!
«Muito mal fizeste, amiga, Em tam mal me costumar: Não sei que fazes agora Em me querer emendar...»
No coração da rainha Batalha se estão a dar Os mais estranhos affectos Que nunca se hãode incontrar:
O que foi, o que é agora, E a ambição de reinar... O amor que tem ao moiro, E o gôsto de se vingar...
Venceu amor e vingança: Deviam de triumphar, Que era em peito de mulher Que a batalha se foi dar.
--«Novas tenho e grandes novas, Amigo, para vos dar: Tomae esta chave e abride, Vereis se são de pezar.»
Com que ância elle abriu a porta, Vista que foi incontrar!.. Palavras que alli disseram, Não n'as saberei contar:
Que foi um bramir de ventos, Um bater d'aguas no mar, Um confundir ceo e terra, Querer-se o mundo acabar...
Vereis por fim o rei moiro Que sentença veio a dar: --«Perdeste a honra, christão: Vida, quero-t'a deixar.
«De uma vez que me roubaste Muito bem me fiz pagar: D'esta basta-me a vergonha Para de ti me vingar.»
Sentia-se elrei Ramiro Do despeito devorar; Com ar contricto e affligido Assim lhe foi a fallar:
--«Grandes foram meus peccados, Poderoso Alboazar; E taes que a mercê da vida De ti não posso acceitar:
«Eu não vim a teu castello Senão so por me intregar, Para receber a morte Que tu me quizeres dar:
«Que assim me foi ordenado Para minha alma salvar Por um sancto confessor A quem me fui confessar.
«E mais me disse e mandou, E assim t'o quero rogar, Que, pois foi pública a offensa, Público seja o penar:
«Que ahi n'essa praça d'armas Tua gente faças junctar, Ahi deante de todos A vida quero acabar
«Tangendo n'ésta bozina Tangendo até rebentar; Que digam os que isto virem, E lhes fique de alembrar:
«Grande foi o seu peccado, «No mundo andou a soar; «Mas a sua penitencia «Mais alto som veio a dar.»
Quizera-lhe o bom do moiro Por fôrça alli perdoar: Mas se a pêrra da rainha Jurou de á morte o levar!...
Veis na praça do castello, Toda moirama a ajunctar; Em pé no meio da turba Ramiro se foi alçar.
Tange que lhe tangerás, Toca rijo a bom tocar; Por muitas leguas á roda Reboava o bozinar.
Se o ouvirão nas galés Que deixou a beira-mar? De-certo ouviram, que um grito Tremendo se ouve soar...