Portuguese poem
Iii
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Oh! que procissão que sai Da antiga porta da tôrre! Que gente que acode a vê-la, Que povo que triste corre!
Tochas de pallida cera Nas trevas da noite escura Vão dando luz baça e triste, Luz que guia á sepultura:
Cubertos com seus capuzes Rezam frades ao-redor, A dobrar desintoados Os sinos causam terror...
Duas noites são passadas, Já não ha luz na setteira, Mas passando e repassando Anda a barca aventureira.
Linda barca tam ligeira Que nenhum mar soçobrou, O farol que te guiava, Ja não luz, ja se apagou.
A tua linda Violante, O teu incanto tam bello, Teve por ti feia morte, Crua morte de cutello.
Na egreja de San’Gil Ouves a campa a dobrar? Ves essas tochas ao longe? Ella que vai a interrar.
Ja se fez o interramento, Ja cahiu a louza fria, Só na egreja solitaria Um cavalleiro se via;
Vestido de dó tam negro, E mais negro o coração, Sôbre a fresca sepultura De rôjo se atira ao chão:
—‘Abre-te, ó campa sagrada, Abre-te a um infeliz!... Seremos na morte unidos, Ja que em vida o ceu não quiz.
‘Abre-te, ó campa sagrada Que escondes tal formosura, Esconde tambem meu crime Com a sua desventura.
‘Vida que eu viver não quero, Vida que eu só tinha n’ella, Recebe-a, ó campa sagrada, Que não posso já soffrê-la.’
E o pranto de correr, E os soluços de estallar, E a mão que leva á espada Para alli se traspassar.
Mas a mão gelou no punho Voz que da campa se erguia, Voz que ainda é suave e doce, Mas tam medonha e tam fria,
Do sepulchro tão cortada, Que as carnes lhe arripia E a vida deixou parada:
—‘Vive, vive, cavalleiro, Vive tu, que eu ja vivi; Morte que me deu meu crime, Fui eu só que a mereci.
‘Ai n’este gêlo da campa, Onde tudo é frio horror, Só da existencia conservo Meu remorso e meu amor!
‘Braços com que te abraçava Ja não teem vigor em si; Cobre a terra humida e dura Os olhos com que te vi;
‘Bôcca com que te bejava Ja não tem sabor em si; Coração com que te amava... Ai! só n’esse não morri!
‘Vive, vive, cavalleiro, Vive, vive e sê ditoso; E apprende em meu triste fado A ser pae e a ser espôso.
‘Donzella com quem casares Chama-lhe tambem Violante; Não amará mais do que eu... Mas—que seja mais constante!
‘Filhas que d’ella tiveres Ensina-as melhor que a mim, Que se não percam por homens Como eu me perdi por ti.’