Portuguese poem
Ii
AOS ANJOS DA POESIA!..
Ó anjos da poesia, ó candidas beldades, Irmãs dos querubins,--ó núncias do Céu, Que me acenáis ao longe, ao fundo das edades, Cantando heroicamente as velhas potestades Nas cordas triunfáis da lira de Tirtêu, E soluçando doces, místicas saudades Nas cordas pastorís da citara de Orfêu...
Que outróra, celebrando os feitos dos guerreiros Em versos festiváis, homéricos, divinos, Andastes a cantar plos flóridos outeiros Da Grecia sonhadôra, e á sombra dos loureiros, Sentadas nos ilhêus dos golfos azulínos; E andastes a gravar na casca dos olmeiros Uns versos amorosos, brandos, pequeninos...
Que voastes para a Italia, e andastes com Virgilio Por sobre o Mar-Egêu, á flôr das ondas lisas; E chorastes com êle as lagrimas do exílio; E lhe fechastes, morto, o veludíneo cilio Daquele olhar, que viu tão largo sem balisas... E assististes talvêz ao magico concilio Das líricas vestáis, das virgens Pitonísas
Vós que inspirastes Tasso e o formidavel Dante, Sentado a meditar ao pé das catedráis, Levando-o pela mão a vêr a casta amante, A cândida Beatriz, que deslisava hiante Na trágica mudêz dos giros infernáis... Falastes com Petrarca á réstea flutuante Das noites de luar, das noites medieváis...
Que destes alma e vida aos versos de Camões, O indómito guerreiro, o excélso trovadôr; Que lhe inspirastes doces, trémulas canções, Nas grutas orientais, nos êrmos, nas soidões, --Canções cheias de fogo e trágicas de dôr; Vós que haveis insuflado aos grandes corações Os carmes da tragédia e os cânticos do amor...
Ó anjos da poesia, ó candidas beldades, De tranças luminosas, loiras como o trigo, Que me acenáis ao longe, ao fundo das edades, Cantando heroicamente as velhas potestades Na cítara de Homéro--o olímpico mendigo...
Eu canto o sofrimento, e as crenças, e as saudades, Ó líricas beldades ideáis, sêde comígo...