Portuguese poem
Os Filósofos
É tempo de seguirmos para cima, Rapazes; vamos lá: Que o tempo é um tesôiro que se estima, Pois é pra isso que o bom Deus o dá.
De olhos profundos, a fitar o chão, E quêdos, quais bramânicos teósofos, Ha uns vultos alí, na solidão, Imersos em letál meditação... Olhai,--são os filosophos.
Os rostos sêcos, magros de cismar, Cobrem-nos sórdidas barbáças feias; Vê-se nos olhos fúlgidos brilhar O fogo das idéas...
Pla estrada da nevoenta antiguidade Vem já de muito longe essa legião, Escoadrinhando com sofreguidão O rastro da Verdade...
No céu da Grecia antiga,--azul, profundo, Cintíla com olímpico clarão A triade infindavel da Razão, Iluminando os ângulos do mundo:
--Aristóteles, Sócrates, Platão...
Esses genios enormes, admiraveis, Esses homens de fundos olhos virgens, Empregáram esforços formidáveis Por descobir os Fins mais as Origens...
E algo êles fizeram com efeito: --Legáram-nos a nós muitas verdades, Como grânulos de oiro imperfeito, Refulgindo na noite das Edades...
Nêsse tempo, porem, não viéra ainda Do misterioso Empireo esse clarão Pedido tantas vêzes por Platão: --A voz de Deus com a Verdade infinda Que rompesse as calígens da Razão...
........................................ Olháe-os hoje ainda...--Olhos erráticos, Fitos não sei em que visões distantes, Parecem velhos ermitães lunáticos, Leitôres de alfarrábios esquipáticos, Sepultos na poeira das estantes...
Surge agora a grandíssima questão, Que êles (coitados...) querem resolver Depressa, quanto antes,--bem ou mal... É a questão do nosso coração, Dêste vago e nostálgico sofrêr Que êles designam Dôr Universal...
Este mal,--esta dôr, este martirio, Pertence essencialmente ao coração Como pertence ás pétalas do lirio Aquela côr tão linda de paixão...
Porem não acreditam, e pretendem Que o homem, de nascença, é imaculádo Como as viçosas pétalas, que estendem As açucênas para o sol doirádo...
E assim andam tentando realisar Cá sobre a terra a plêna felicidade, Pondo o homem na peânha dum altar, Fazendo dêle uma áuto-divindade...
E o mundo, no mais vil materialismo, Desfaz-se numa infanda corrução, E, guiado pela rédea do Egoismo, Precipíta-se no fundo dum abismo Onde arde um cataclismo, Onde rouquêja a fulva sedição!
E passa á flor das coisas a gemer --Qual bocêjo de quem acórda tarde-- O tédio geniál de Schopenhauer, O imenso pessimismo de Leopárdi...
De olhos profundos, a fitar o chão, Esfíngicos como índicos teósofos, Olhái os cismadôres da soidão, Em filosófica meditação...
Coitados dos filósofos!