Portuguese poem
Os Miseraveis
Tendes olhos de vêr. Olhai...--Ao fundo, Nas bôcas tenebrosas das cavernas, Não vislumbráis um turbilhão imundo De larvas, num grasnído gemebundo Feito de raiva e maldições eternas?
--São os ladrões, ferozes valdevinos, Cujo instinto são odios e sangueiras! Alta noite, os seus olhos de assassinos Fosforêjam bravíos, réptilínos, Entre as sarças das velhas carvalheiras...
Pelas trevas, ao som dos temporáis, Quando os ventos ululam nas florestas, Vão agrupar-se ás portas dos casáis, Afiando os mortíferos punháis, Coçando-os pelas mãos nervosas, lestas...
--São tambem vagabundos,--os cigânos, De barbaças intonsas e nojentas, Esguedelhados, rôtos e marrânos, De testa cancerosa envolta em pânos, Escorrendo materias fedorentas...
Coitados! Em magótes pelas praças, Para colher esmolas miseráveis, Esbracêjam ridículas negaças E rouquêjam exóticas chalaças, Retorcendo as bocárras execráveis...
Pobres cigânos! De olhos estoirados, Pernas pôdres e faces caboucádas, Lá vão a correr mundo, atormentados, De estômago vasío e pés pisados Dos duros pedregulhos das estradas...
São inda as torturadas das rameiras, As pobres raparigas sem pudôr, Que se espojam nas frígidas lameiras, Ao sol, á chuva, ás rijas ventaneiras, Sem alma, sem destino, sem amor!
São míseros farrapos encharcados No lôdo da torpêza vermináda! Ah! homens, egoistas derrancados! E ainda vos julgáis civilisados, Ó luxuriosa, estupida manáda!
Não lastimáis as pobres meretrizes, Que andam na lâma, a chafurdar de rôjo? Chamái á dignidade as infelizes!
--Ó rapazes, tapêmos os narizes; Sigâmos para cima. Isto faz nôjo!