Portuguese poem
IV (A Madre do que livrou)
by Afonso X de Leão e Castela (1221–1284)
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
Em Beorges um judeu ouve que fazer sabia vidro, e um filho seu —que él en mais non havia, per quant’ aprendi eu— ontr’ os crichãos leia na escol’; e era greu a seu padre Samuel.
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
O meninho o melhor leeu que leer podia e d’aprender gran sabor ouve de quanto oia; e por esto tal amor con esses moços colhia, con que era leedor, que ia en seu tropel.
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
Porem vos quero contar o que lh’ um dia de Pascoa, que foi entrar na eigreja, u viia o abad’ ant’ o altar, e aos moços dand’ ia hostias de comungar e vin’ em um calez bel.
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
O judeucinho prazer ouve, ca lhe parecia que hostias a comer lhes dava Santa Maria, que viia resprandecer e no altar u siia e e nos braços tẽer seu Filho Emanuel.
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
Quand’ o moç’ esta vison viu, tan muito lhe prazia, que por filhar seu quinhon ant’ os outros se metia. Santa Maria enton a mão lhe porregia, e deu-lhe tal comunion que foi mais doce ca mel.
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
Poi-la comunion filhou, logo d’ali se partia e en cas seu padr’ entrou como fazer soia; e ele lhe preguntou que fezera. Él dizia: « A dona me comungou que vi so o chapitel. »
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
O padre, quand’ est’ oiu, creceu-lhe tal felonia, que de seu siso saiu; e seu Filh’ enton prendia, e u o forn’ arder viu meté-o dentr’ e choia o forn’, e mui mal faliu como traedor cruel.
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
Rachel, sa madre, que bem grand’ a seu filho queria, cuidando sem outra que no forno ardia, deu grandes vozes porem e em a rua saia; e aqui a gente vem ao doo de Rachel.
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
Pois souberon sem mentir o por que ela carpia, foron log’ o forn’ abrir em que o moço jazia, que a Virgem quis guarir como guardou Anania Deus, seu Filh’, e sem falir Azari’ e Misael.
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
O moço logo d’ali sacaron com alegria e preguntaron-lh’ assi se se d’algum mal sentia. Diss’ él: « Non, ca eu cobri o que a dona cobria que sobre lo altar vi com seu Filho, bom donzel. »
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.
Por este miragr’ atal log’ a judea criia, e o meninho sen al o batismo recebia; e o padre, que o mal fezera, per sa folia, deron-lh’ enton morte qual quis dar a seu Filh’ Abel.
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’Irrael.