Portuguese poem
IX (Por que nos hajamos)
by Afonso X de Leão e Castela (1221–1284)
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Em esta cidade, que vos hei já dita, ouv’ uma dona de mui santa vida, mui fazedor d’algu’ e de todo mal quita, rica e mui nobre e de bem comprida. Mas, por que sabíamos como non queria do mundo gabança, como fez digamos um’ albergaria, u filhou morança.
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
E ali morand’ e muito bem fazendo a toda-las gentes que per passavam, veio i um monge, segund’ eu aprendo, que pousou com ela, com’ outros pousavam. Diss’ ela: « Ouçamos tenhedes via, se ides a França. » Diss’ él: « Mas cuidamos dereit’ a log’ ir sem tardança. »
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Log’ entón a dona, chorando dos olhos, muito lhe rogava que tornasse, des que él ouvesse fito-los ant’ o San Sepulcro e en él beijasse. « E mais vos rogamos que, se vos prazia, uma semelhança que d’alá vejamos da que sempre guia os seus sem errança. »
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Pois que foi o monge na santa cidade, Deus por nos morte cruz prendera, comprido seu feito, da magestade non lhe veio a mente, que él prometera; mas disse: « Movamos, » a sa companhia, « que gran demorança aqui u estamos bõa non seria sem haver . »
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Quand’ est’ ouve dito, cuidou-s’ir sem falha; mas a voz do ceo lhe disse: « Mesquinho, e como non levas, assi Deus te valha, a omagem ’tigo, e vas teu caminho? Esto non loamos; ca mal ch’estaria que, per , se a que amamos monja non havia da Virgem .»
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Mantenent’ o frade os que com él iam leixou ir, e logo tornou sem tardada e foi buscar u as omages vendiam, e comprou , a melhor pintada. Diss’ el: « Bem mercamos; e quem poderia a esta põer? E vamos a noss’ abadia com esta .»
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
E pois que o monge aquesto feit’ ouve, foi-s’ entón sa vi’, a omagen no seio. E log’ i há preto um león, u , achou, que correndo pera ele veio de uns ramos, non com felonia, mas com ; por que bem creamos que Deus o queria, guardar sem .
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Des quando o monge do león foi quito, que, se fora, non perdera medo dél, a pouca d’ora um ladrón maldito, que Romeus roubava, diss’ aos seus : « Por que non matamos este, pois desvia? Dar-lh-ei com mia lança, e o seu partamos, logo sem todos per . »
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Quand’ est’ ouve dito, quis em él dar salto, dizendo: « Matemo-lo ora, irmãos. » Mas a voz do ceo lhes disse mui d’alto: « , non ponhades em ele as mãos; ca nos lo guardamos de e de , e bem vos mostramos que Deus prenderia de vos gran vingança. »
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Pois na majestade viu tan gran virtude, o mong’ entón disse: « Como quer que seja, bõa será esta, asse Deus m’ajude, em Costantinoble na nossa eigreja; ca, se a levamos , e gran será, non erramos. » E ao mar s’ia com tal acordança.
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
E em uma nave com outra gran gente entrou, e gran peça pelo mar ; mas uma tormenta veio , que do que tragiam muit’ en mar deitaron, por guarir, , e ele prendia com desesperança, a que , que sigo tragia, por sa ,
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Por no mar deita-la. Que a non deitasse uma voz lhe disse, ca era pecado, mas contra o ceo a alçasse, e o tempo forte seria quedado. Diz: « Prestes estamos. » Entón a ergia e diz com : « A ti graças damos que es alegria noss’ e amparança. »
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
E log’ a tormenta quedou essa ora, e a nav’ a Acre entón foi tornada; e com sa omagem o monge foi fora e foi-se à casa da dona honrada. Ora retraiamos quan grand’ arteria fez per ; mas, como pensamos, tanto lhe com’ uma ,
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
O monge da dona non foi conhoçudo, onde prazer ouve, e ir-se quisera; logo da capela u era metudo non viu end’ a porta nem per u venhera. « Por que non leixamos. » contra si dizia, « e sem , esta que compramos, e Deus tiraria nos desta balança? »
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.
Él esto pensando, viu a port’ aberta e foi à dona contar sa fazenda, e deu-lh’ a omagem, ond’ ela foi certa, e sobelo altar a pos por emenda. Carne, non dultamos, se fez e saya dela, mas non rança, , e sejamos certos que corria e corr’ abondança.
Por que nos hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domas achamos que Santa Maria fez gran demostrança.