Portuguese poem
XVII (Sempre seja e loada)
by Afonso X de Leão e Castela (1221–1284)
Sempre seja e loada Santa Maria, a noss’ .
Maravilhoso miragre d’oir vos quer' eu ora contar sem mentir, de como fez o diabre fogir de Roma, a Virgem de Deus amada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
En Roma foi, ja ouve tal sazón, que uma dona mui de coraçón amou a Madre de Deus; mas entón sofreu que fosse do Demo tentada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
A dona mui bom marido perdeu, e com pesar dél per poucas morreu; mas mal d’um filho prendeu que dél havia, que a fez prenhada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
A dona, pois que prenhe se sentiu, gran pesar ouve; mas depois pariu un filh’, e a nengum non viu mató-o dentr’ em sa cas’ encerrada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
Em aquel tempo o Demo mayor tornou-s’ em forma d’home sabedor, e mostrando-se por devinhador, o Emperador lhe fez dar soldada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
E o al que soub’ adevinhar, foi o feito da dona mesturar; e disse que lho queria provar, em tal que fosse log’ ela queimada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
E pero lh’ o Emperador dizer oiu, ja per non lho quis creer; mas fez a dona ante si , e ela veio bem acompanhada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
Poi-lo Emperador chamar mandou a dona, logo o Dem’ chamou, que lhe foi dizer per quanto passou, de que foi ela mui maravilhada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
O Emperador lhe disse: « Molher bõa, de responder vos é mester. » « O bem », diss’ ela, « se prazo ouver em que eu possa ser conselhada. »
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
O emperador lhes pos praz’ atal: « D’hoj’ a tres dias, non haja , venha provar o maestr’ este mal; se non, a testa lhe seja talhada. »
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
A bõa dona se foi ben dali a um’ eigreja, per quant’ aprendi, de Santa Maria, e diss’ assi: « Senhor, acorre á tua coitada. »
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
Santa Maria lhe diss’: « Est’ afán e esta coita que tu hás faz o maestre; mas menos que can o tem em vil, e sei bem esforçada. »
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
A boa dona sem nium desdém ant’ o Emperador aqui a vem; mas o Demo entón per nulha ren non a conheceu nem lhe disse nada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.
Diss’ o Emperador: « Par San Martin, maestre, mui pret’ é a vossa fim. » Mas foi-s’ o Demo e , e derribou do teit’ uma braçada.
Sempre seja bẽeita e loada Santa Maria, a noss’ avogada.