Portuguese poem
O Soldado — I (Veia tranquilla e pura)
by Alexandre Herculano (1810–1877)
Veia tranquilla e pura Do meu paterno rio: Dos campos, que elle rega, Mansissimo armentio:
Rocío matutino: Prados tao deleitosos: Valles, que assombram selvas De sinceiraes frondosos:
Terra da minha infancia: Tecto de meus maiores: Meu breve jardimzinho: Minhas pendidas flores:
Harmonioso e sancto Sino do presbyterio: Cruzeiro venerando Do humilde cemiterio,
Onde os avós dormiram, E dormirão os paes; Onde eu talvez não durma, Nem rese, talvez, mais:
Eu vos saúdo!—E o longo Suspiro amargurado Vos mando.—É quanto póde Mandar pobre soldado.
Sobre as cavadas ondas Dos mares procellosos, Por vós já fiz soar Meus cantos dolorosos.
Na proa resonante Eu me assentava mudo, E aspirava ancioso O vento frio e agudo;
Porque em meu sangue ardia A febre da saudade, Febre que só minora Sopro de tempestade;
Mas que se irrita, e cresce, Quando é tranquillo o mar; Quando da Patria o céu Céu puro vem lembrar,
Quando, lá no occidente, A nuvem vaporosa A frouxa luz da tarde Tinge de côr de rosa;
Quando, qual globo em brasa, O sol vermelho crece, E paira sobre as aguas, E em fim desapparece;
Quando no mar se estende Manto de negro dó; Quando ao quebrar do vento, Noite e silencio é só;
Quando sussurram meigas Ondas que a nau separa, E a rapida ardentia Em torno a sombra aclara.