Portuguese poem
O Soldado — IV (E a balla sibillando)
by Alexandre Herculano (1810–1877)
E a balla sibillando, E o trom da artilharia, E a tuba clamorosa, Que os peitos accendia;
E as ameaças torvas, E os gritos de furor, E desses, que expiravam, Som cavo de estertor;
E as pragas do vencido, Do vencedor o insulto, E a palidez do morto, Nu, sanguento, insepulto,
Eram um cháos de dores, Em convulsão horrivel, Sonho de accesa febre, Scena tremenda e incrivel!
E suspirei:—nos olhos Me borbulhava o pranto; E a dor, que trasbordava, Pediu-me infernal canto.
Oh, sim!—maldisse o instante, Em que buscar viera, Por entre as tempestades, A terra em que nascêra.
Que é, em fraternas lides, Um canto de victoria? É um prazer mesquinho; É triumphar sem gloria.
Maldicto era o triumpho, Que rodeava o horror, Que me tingia tudo De sanguinosa côr!
Então olhei saudoso Para o sonoro mar; Da nau do vagabundo Meigo me riu o arfar.
De desespero um brado Soltou, impio, o poeta. Perdão!—chegára o misero Da desventura á meta.