Portuguese poem
O Soldado — VI (Assim, entre amarguras)
by Alexandre Herculano (1810–1877)
Assim, entre amarguras, Me delirava a mente!— E o sol ía fugindo No termo do occidente.
E os fortes lá jaziam Co'a face ao céu voltada; Sorria a noite aos mortos, Passando socegada.
Porém, a noite delles Não era a que passava! Na eternidade a sua Corria, e não findava.
Contrarios ainda ha pouco, Irmãos em fim lá eram! O seu thesouro de odio, Mordendo o pó, cederam.
No limiar da morte, Assim tudo fenece! Inimisades callam, E até o amor esquece!
Meus dias rodeados Foram de amor outr'ora; E nem um vão suspiro Terei, morrendo, agora:
Nem o apertar da dextra Ao desprender da vida: Nem lagryma fraterna Sobre a feral jazida.
Meu derradeiro alento Não colherão os meus? Por minha alma atterrada Quem pedirá a Deus?
Ninguem!—Aos pés o servo Meus restos calcará; E o riso do despreso Vaidoso soltará.
O sino luctuoso, Não lembrará meu fim: Preces, que o morto affagam, Não se erguerão por mim!
O filho dos desertos, O lobo carniceiro Ha-de escutar alegre Meu grito derradeiro!
Oh morte!—o somno teu Só é somno mais largo: Porém, na juventude, É o dormi-lo amargo.
Quando na vida nasce Essa mimosa flor, Como a cecem suave, Delicioso amor:
Quando a mente accendida Crê na ventura e gloria: Quando o presente é tudo, É inda nada a memoria;
Deixar a cara vida, Então, é doloroso; E o moribundo á terra Lança um olhar saudoso.
A taça da existencia No fundo fezes tem; Mas os primeiros tragos Doces—bem doces—vem.
E eu morrerei agora, Sem abraçar os meus, Sem jubiloso um hymno Alevantar aos céus?
Morrer!—E isso que importa? Final suspiro, ouvi-lo Ha-de a patria. Na terra Eu dormirei tranquillo.
Dormir?—Só dorme o frio Cadaver, que não sente; A alma vôa, e se abriga Aos pés do Omnipotente.
Tambem eu para o throno Accorrerei do Eterno: Crimes não são meu dote; Erros não pune o inferno.
E vós entes queridos, Entes que tanto amei, Dando-vos liberdade Contente acabarei.
Por mim livres chorar Vós podereis um dia, E ás cinzas do soldado Erguer memoria pia.
Porto—Julho de 1832.
*D. Pedro.*
More by Alexandre Herculano
- O Soldado — II (Eu já ouvi, de noite)
- O Soldado — III (Bem abundante messe)
- O Soldado — IV (E a balla sibillando)
- O Soldado — V (Terra infame!--de servos aprisco)
- Pedro
- Segunda Serie — I (Salve, oh valle do sul…)
- Segunda Serie — II (Suspira o vento no alamo…)
- Segunda Serie — III (Oh, como surge magestosa e…)