Portuguese poem
O Soldado — III (Bem abundante messe)
by Alexandre Herculano (1810–1877)
Bem abundante messe De pranto, e de saudade, O foragido errante Colhe na soledade!
Para o que a patria perde É o universo mudo; Nada lhe ri na vida; Móra o fastio em tudo;
No meio das procellas; Na calma do oceano; No sopro do galerno, Que enfuna o largo panno;
E no entestar co'a terra Por abrigado esteiro; E no pousar á sombra Do tecto do estrangeiro.
E essas memorias tristes Minha alma laceraram; E a senda da existencia Bem agra me tornaram:
Porém nem sempre ferreo Foi meu destino escuro; Sulcou de luz um raio As trévas do futuro:
Do meu paiz querido A praia ainda beijei; E o velho castanheiro No valle ainda abracei!
Nesta alma regelada Surgiu ainda o goso; E um sonho lhe sorriu Fugaz, mas amoroso.
Oh, foi sonho da infancia Desse momento o sonho! Paz e esperança vinham Ao coração tristonho.
Mas o sonhar que monta Se passa, e não conforta? Minh'alma deu em terra, Como se fosse morta,
Foi a esperança nuvem, Que o vento some á tarde. Facho de guerra acceso Em labaredas arde!
Do fratricidio a luva Irmão a irmão lançára; E o grito: ai do vencido! Nos montes retumbára.
As armas se hão cruzado: O pó mordeu o forte: Caiu: dorme tranquillo: Deu-lhe repouso a morte.
Ao menos, nestes campos Sepulchro conquistou; E o adro do estrangeiro Seus ossos não tragou.
Elle herdará, ao menos, Aos seus honrado nome: Paga de curta vida Ser-lhe-ha largo renome.