Versos Portuguese Álvares de Azevedo Crepúsculo do mar

Portuguese poem

Crepúsculo do mar

by (1831–1852)

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Que rêves-tu plus beau sur ces lointaines plages Que cette chaste mer qui baigne nos rivages? Que ces mornes couverts de bois silencieux, Autels d'où nos parfurns s'élèvent dans les cieux? LAMARTINE

Como é doce viver nas longas praias Nestas ondas e sol e ventania! Como ao triste cismar encanto aéreo Nas sombras preludia!

O painel luminoso do horizonte Como as cândidas sombras alumia Dos fantasmas de amor que nós amamos Na ventura de um dia!

Como voltam gemendo e nebulosas, Brancas as roupas, desmaiado o seio, Inda uma vez a murmurar nos sonhos As palavras do enleio!...

Aqui nas praias, onde o mar rebenta E a escuma no morrer os seios rola, Virei sentar-me no silêncio puro Que o meu peito consola!

Sonharei... lá enquanto, no crepúsculo, Como um globo de fogo o sol se abisma E o céu lampeja no clarão medonho De negro cataclisma...

Enquanto a ventania se levanta E no ocidente o arrebol se ateia

No cinábrio do empíreo derramando A nuvem que roxeia...

Hora solene das idéias santas Que embala o sonhador nas fantasias, Quando a taça do amor embebe os lábios Do anjo das utopias!

Oceano de Deus! Que moribundo, A cantiga do nauta mais sentida Tão triste suspirou nas tuas ondas, Como um adeus à vida?

Que nau cheia de glória e d'esperanças, Floreando ao vento a rúbida bandeira, Na luz do incêndio rebentou bramindo Na vaga sobranceira?

Por que ao sol da manhã e ao ar da noite Essa triste canção, eterna, escura, Como um treno de sombra e de agonia, Nos teus lábios murmura?

É vermelho de sangue o céu da noite, Que na luz do crepúsculo se banha: Que planeta do céu do roto seio Golfeja luz tamanha?

Que mundo em fogo foi bater correndo Ao peito de outro mundo; — e uma torrente De medonho clarão rasgou no éter E jorra sangue ardente?

Onde as nuvens do céu voam dormindo, Que doirada mansão de aves divinas Num véu purpúreo se enlutou rolando Ao vento das ruínas?