Portuguese poem
Cantiga
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
I
Em um castelo doirado Dorme encantada donzela... Nasceu; e vive dormindo — Dorme tudo junto dela.
Adormeceu-a, sonhando, Um feiticeiro condão, E dormem no seio dela As rosas do coração.
Dorme a lâmpada argentina Defronte do leito seu; Noite a noite a lua triste Vem espreitá-la do céu.
Voam os sonhos errantes Do leito sob o dossel E suspiram no alaúde As notas do menestrel.
E no castelo, sozinha, Dorme encantada donzela... Nasceu; e vive dormindo — Dorme tudo junto dela.
Dormem cheirosas, abrindo, As roseiras em botão... E dormem no seio dela As rosas do coração.
II
A donzela adormecida É a tua alma, santinha,
Que não sonha nas saudades E nos amores da minha.
— Nos meus amores que velam Debaixo do teu dossel E suspiram no alaúde As notas do menestrel.
Acorda, minha donzela, Foi-se a lua, eis a manhã E nos céus da primavera É a aurora tua irmã.
Abriram no vale as flores Sorrindo na fresquidão: Entre as rosas da campina Abram-se as do coração.
Acorda, minha donzela, Soltemos da infância o véu... Se nós morrermos num beijo, Acordaremos no céu.