Portuguese poem
Crepúsculo nas montanhas
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
Pálida estrela, casto olhar da noite, diamante luminoso na fronte azul do crepúsculo, o que vês na planície? OSSIAN
No ar se afoga desmaiando a nota Do sino do deserto...
Vim alentar meu coração saudoso No vento das campinas, Enquanto nesse manto lutuoso Pálida te reclinas
E morre em teu silêncio, ó tarde bela, Das folhas o rumor... E late o pardo cão que os passos vela Do tardio pastor!
II
Pálida estrela! o canto do crepúsculo Acorda-te no céu: Ergue-te nua na floresta morta Do teu doirado véu!
Ergue-te!... eu vim por ti e pela tarde Pelos campos errar, Sentir o vento, respirando a vida E livre suspirar.
É mais puro o perfume das montanhas Da tarde no cair... Quando o vento da noite agita as folhas É doce o teu luzir!
Estrela do pastor, no véu doirado Acorda-te na serra, Inda mais bela no azulado fogo Do céu da minha terra!
III
Estrela d'oiro, no purpúreo leito Da irmã da noite, branca e peregrina No firmamento azul derramas dia Que as almas ilumina!
Abre o seio de pérola, transpira Esse raio de luz que a mente inflama! Esse raio de amor que ungiu meus lábios No meu peito derrama!
IV
Lo bel pianeta he ad amar conforta Faceva tutto rider l'oriente DANTE, Purgatório
Ou pela noite cintileis medrosas, Estrelas, eu vos amo!
E quando, exausto o coração no peito Do amor nas ilusões espera e dorme, Diáfanas vindes-lhe doirar na mente A sombra da esperança!
Oh! quando o pobre sonhador medita Do vale fresco no orvalhado leito Inveja às águias o perdido vôo Para banhar-se no perfume etéreo... E, nessa argêntea luz, no mar de amores Onde entre sonhos e luar divino A mão do Eterno vos lançou no espaço, Respirar e viver!