Versos Portuguese Antero de Quental Depois De Ler A Sua Poesia

Portuguese poem

Depois De Ler A Sua Poesia

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Fique em silencio eterno a minha lyra; Pomba do céo tu vae; Deus te bem fade, N'esta alma em teu logar guardo a saudade, Se a essencia sobrevive á flor que expira. ........................................

Foi o canto do cysne, o canto derradeiro D'aquella augusta voz que se esvaiu no ar; Adeus da terna amante ao seu amor primeiro Que eterno ella julgou, mas cedo viu findar; Ultimo adeus de quem, ha pouco ainda crente --N'uma hora apenas--vê, qual sombra na corrente, Morrer-lhe as illusões co'a morte d'esse amor E triste se envolveu no vêo de uma erma dôr. Soffreu da soledade... E onde ha hi um peito Que não soffra tambem, ainda ao mal affeito?

Soffreu da soledade em que a alma lhe ficou, Depois que ao longe e triste o ecco se finou D'aquella unica voz, que ainda repetia A sua voz, bem como, á tarde em fins do dia, A nuvem que passou reflecte um raio ao sol, Que mesmo occulto a tinge aos fogos do arrebol. Soffreu quando da sorte a mão pesada veiu Poisar-lhe sobre o peito e comprimiu alli A ancia que animára o arfar d'aquelle seio, Seio que só bateu--poesia!--amor!--por ti!

E elle então disse: «Aqui deponho a minha lyra: Se esta alma a outros céos, a outra patria aspira, Se esta ancia infinita não posso aqui fartar, Que val'--ecco sem voz--que val' o meu cantar? Val' mais que eu, em silencio, espere o grande dia, Cuja aurora immortal, em luz, em poesia, Me hade envolver, e assim levar-me áquelle céo. Céo do que amou, creu, esperou e soffreu. Emtanto--esp'rando--viva em silencio profundo, Deixando em vão rugir,--qual voz do mar--o mundo; Aqui guardo a saudade, esse talisman só, Como da flor já secca inda se guarda o pó.--»

Cobriu o rosto após co' manto da tristeza; O sol d'aquelle céo fugiu ao longe... além... E a noite sem luar, sem brilho, sem belleza Ao negro que hia lá veiu ajuntar tambem. ........................................ ........................................ Poeta, essa não é tua missão. Curvar-se Um momento é do homem; porém não prostrar-se Gemendo em desalento, e face contra o chão, Como quem acceitou da dôr a escravidão. Poeta é quem tem fé, quem busca no futuro A crença que lhe nega este presente impuro: Não quem deixa cahir a lyra, não quem vae Pedir ao desalento abrigo e amor de pae. É virtude soffrer, nunca perder a crença; É ter esp'rança tal que a dôr mais crua vença; É não pedir seu premio aos homens, mas a Deus, E passar n'este valle, o olhar fito nos céos.

Tal é tua missão:--Luctar! O soffrimento, Ao pé do eterno bem, o que é mais que um momento?

Coimbra, Março, 1861

Como a poesia de João de Deus citada na epigraphe da p. 73, não foi incorporada nas collecções das Flores do Campo e Folhas Soltas, transcrevemol-a aqui para intelligencia do texto dos nossos cadernos manuscriptos de Coimbra, notando as variantes da primeira estrophe.