Versos Portuguese Antero de Quental Hino da manhã

Portuguese poem

Hino da manhã

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Tu, casta e alegre luz da madrugada, Sobe, cresce no céo, pura e vibrante, E enche de força o coração triumphante Dos que ainda esperam, luz immaculada!

Mas a mim pões-me tu tristeza immensa No desolado coração. Mais quero A noite negra, irmã do desespero, A noite solitaria, immovel, densa,

O vacuo mudo, onde astro não palpita, Nem ave canta, nem susurra o vento, E adormece o proprio pensamento, Do que a luz matinal... a luz bemdita!

Porque a noite é a imagem do Não-Ser, Imagem do repouso inalteravel E do esquecimento inviolavel, Que anceia o mundo, farto de soffrer...

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto, O nada universal o pensamento, E despreza o viver e o seu tormento. E olvida, como quem está já morto...

E, interrogando intrepido o Destino, Como reu o renega e o condemna, E virando-se, fita em paz serena O vacuo augusto, placido e divino...

Porque a noite é a imagem da Verdade, Que está além das cousas transitorias. Das paixões e das formas ilusorias, Onde sómente ha dor e falsidade...

Mas tu, radiante luz, luz gloriosa, De que és symbolo tu? do eterno engano, Que envolve o mundo e o coração humano Em rede de mil malhas, mysteriosa!

Symbolo, sim, da universal traição, D'uma promessa sempre renovada E sempre e eternamente perjurada, Tu, mãe da Vida e mãe da Ilusão...

Outros estendam para ti as mãos, Supplicantes, com fé, com esperança... Ponham outros seu bem, sua confiança Nas promessas e a luz dos dias vãos...

Eu não! Ao ver-te, penso: Que agonia E que tortura ainda não provada Hoje me ensinará esta alvorada? E digo: Porque nasce mais um dia?

Antes tu nunca fosses, luz formosa! Antes nunca existisses! e o Universo Ficasse inerte e eternamente immerso Do possivel na nevoa duvidosa!

O que trazes ao mundo em cada aurora? O sentimento só, só a consciencia, D'uma eterna, incuravel impotencia, Do insaciavel desejo, que o devora!

De que são feitos os mais belos dias? De combates, de queixas, de terrores! De que são feitos? de ilusões, de dores, De miserias, de maguas, de agonias!

O sol, inexoravel semeador, Sem jamais se cançar, percorre o espaço, E em borbotões lhe jorram do regaço As sementes innumeras da Dor!

Oh! como cresce, sob a luz ardente, A seara maldita! como treme Sob os ventos da vida e como geme N'um susurro monotono e plangente!

E cresce e alastra, em ondas voluptuosas, Em ondas de cruel fecundidade, Com a força e a subtil tenacidade Invencivel das plantas venenosas!

De podridões antigas se alimenta, Da antiga podridão do chão fatal... Uma fragrancia morbida, mortal Lhe reçuma da seiva peçonhenta...

E é esse aroma languido e profundo, Feito de seducções vagas, magneticas, De ardor carnal e de attracções poeticas, É esse aroma que envenena o mundo!

Como um clarim soando pelos montes, A aurora acorda, placida e inflexivel, As miserias da terra: e a hoste horrivel, Enchendo de clamor e horisontes.

Torva, cega, colerica, faminta, Surge mais uma vez e arma-se á pressa Para o bruto combate, que não cessa, Onde é vencida sempre e nunca extincta!

Quantos erguem n'esta hora, com esforço, Para a luz matinal as armas novas, Pedindo a lucta e as formidaveis provas, Alegres e crueis e sem remorso,

Que esta tarde ha-de ver, no duro chão Cahidos e sangrentos, vomitando Contra o céo, com o sangue miserando, Uma extrema e importante imprecação!

Quantos tambem, de pé, mas esquecidos, Ha-de a noite encontrar, sós e encostados A algum marco, chorando aniquilados As lagrimas caladas dos vencidos!

E porque? para que? para que os chamas, Serena luz, ó luz inexoravel, Á vida incerta e á lucta inexpiavel, Com as falsas visões, com que os inflamas?

Para serem o brinco d'um só dia Na mão indifferente do Destino... Clarão de fogo-fatuo repentino, Cruzando entre o nascer e a agonia...

Para serem, no páramo enfadonho, Á luz de astros malignos e enganosos, Como um bando de espectros lastimosos, Como sombras correndo atraz d'um sonho...

Oh! não! luz gloriosa e triumphante! Sacode embora o encanto e as seducções, Sobre mim, do teu manto de ilusões: A meus olhos, és triste e vacilante...

A meus olhos, és baça e luctuosa E amarga ao coração, ó luz do dia, Como tocha esquecida que alumia Vagamente uma crypta monstruosa...

Surges em vão, e em vão, por toda a parte, Me envolves, me penetras, com amor... Causas-me espanto a mim, causas-me horror, E não te posso amar — não quero amar-te!

Symbolo da Mentira universal, Da apparencia das cousas fugitivas, Que esconde, nas moventes perspectivas, Sob o eterno sorriso o eterno Mal,

Symbolo da Ilusão, que do infinito Fez surgir o Universo, já marcado Para a dor, para o mal, para o peccado, Symbolo da existencia, sê maldito!