Versos Portuguese Antero de Quental Psalmo

Portuguese poem

Psalmo

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Esperemos em Deus! Elle ha tomado Em suas mãos a massa inerte e fria Da materia impotente e, n'um só dia, Luz, movimento, acção, tudo lhe ha dado.

Elle, ao mais pobre de alma, ha tributado Desvelo e amor: elle conduz á via Segura quem lhe foge e se extravia, Quem pela noite andava desgarrado.

E a mim, que aspiro a elle, a mim, que o amo, Que anceio por mais vida e maior brilho. Ha-de negar-me o termo d'este anceio?

Buscou quem o não quiz; e a mim, que o chamo, Ha-de fugir-me, como a ingrato filho? Ó Deus, meu pae e abrigo! espero!... eu creio!

A M.C.

No céo, se existe um céo para quem chora. Céo, para as magoas de quem soffre tanto... Se é lá do amor o foco, puro e santo, Chama que brilha, mas que não devora...

No céo, se uma alma n'esse espaço mora. Que a prece escuta e encharga o nosso pranto... Se ha Pae, que estenda sobre nós o manto Do amor piedoso... que eu não sinto agora...

No céo, ó virgem! findarão meus males: Hei-de lá renascer, eu que pareço Aqui ter só nascido para dôres.

Ali, ó lyrio dos celestes valles! Tendo seu fim, terão o seu começo. Para não mais findar, nossos amores.

A João de Deus

Se é lei, que rege o escuro pensamento, Ser vã toda a pesquisa da verdade, Em vez da luz achar a escuridade, Ser uma queda nova cada invento;

É lei tambem, embora cru tormento, Buscar, sempre buscar a claridade, E só ter como certa realidade O que nos mostra claro o entendimento.

O que ha-de a alma escolher, em tanto engano? Se uma hora crê de fé, logo duvida: Se procura, só acha... o desatino!

Só Deus póde acudir em tanto damno: Esperemos a luz d'uma outra vida, Seja a terra degredo, o céo destino.

A Alberto Telles

Só!--Ao ermita sósinho na montanha Visita-o Deus e dá-lhe confiança: No mar, o nauta, que o tufão balança, Espera um sopro amigo que o céo tenha...

Só!--Mas quem se assentou em riba estranha, Longe dos seus, lá tem inda a lembrança: E Deus deixa-lhe ao menos a esperança Ao que á noite soluça em erma penha...

Só!--Não o é quem na dor, quem nos cançaços, Tem um laço que o prenda a este fadario. Uma crença, um desejo... e inda um cuidado...

Mas cruzar, com desdem, inertes braços, Mas passar, entre turbas, solitario, Isto é ser só, é ser abandonado!

A J. Felix dos Santos

Sempre o futuro, sempre! e o presente Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e de dor sempre a mais triste, E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! que importa o futuro, se inclemente Essa hora, em que a esperança nos consiste, Chega... é presente... e só á dor assiste?... Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delirio?... O que procuro, Se me foge, é miragem enganosa, Se me espera, peor, espectro impuro...

Assim a vida passa vagarosa: O presente, a aspirar sempre ao futuro: O futuro, uma sombra mentirosa.

A M. C.

Porque descrês, mulher, do amor, da vida? Porque esse Hermon transformas em Calvario? Porque deixas que, aos poucos, do sudario Te aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugio, que assim perdida Buscas em vão n'este ermo solitario? Que signo obscuro de cruel fadario Te faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste: Deus, em penhor, te deu a formosura; Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descrês do viver?... E eu, pobre e triste, Que só no teu olhar leio a ventura, Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?

A Alberto Sampaio

Não me fales de gloria: é outro o altar Onde queimo piedoso o meu incenso, E animado de fogo mais intenso, De fé mais viva, vou sacrificar.

A gloria! pois que ha n'ella que adorar? Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso... Que vislumbre nos dá do amor immenso? Esse amor que ventura faz gosar?

Ha outro mais perfeito, unico eterno, Farol sobre ondas tormentosas firme, De immoto brilho, poderoso e terno...

Só esse hei-de buscar, e confundir-me Na essencia do amor puro, sempiterno... Quero só n'esse fogo consumir-me!

A Germano Meyrelles

Só males são reaes, só dor existe; Prazeres só os gera a phantasia; Em nada, um imaginar, o bem consiste, Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscamos o que é, o que devia Por natureza ser não nos assiste; Se fiamos n'um bem, que a mente cria, Que outro remedio ha ahi senão ser triste?

Oh! quem tanto pudera, que passasse A vida em sonhos só, e nada vira... Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fôra tão ditoso que olvidasse... Mas nem seu mal com elle então dormira, Que sempre o mal peor é ter nascido!

A M. C.

Não busco n'esta vida gloria ou fama: Das turbas que me importa o vão ruído? Hoje, deus... e amanhã, já esquecido Como esquece o clarão de extincta chama!

Foco incerto, que a luz já mal derrama, Tal é essa ventura: eccho perdido, Quanto mais se chamou, mais escondido Ficou inerte e mudo á voz que o chama.

D'essa coroa é cada flor um engano, É miragem em nuvem illusoria, É mote vão de fabuloso arcano.

Mas coroa-me tu: na fronte ingloria Cinge-me tu o louro soberano... Verás, verás então se amo essa gloria!