Portuguese poem
Redenção
Vozes do mar, das arvores, do vento! Quando ás vezes, n'um sonho doloroso, Me embala o vosso canto poderoso, Eu julgo igual ao meu vosso tormento...
Verbo crepuscular e intimo alento Das cousas mudas; psalmo mysterioso; Não serás tu, queixume vaporoso, O suspiro do mundo e o seu lamento?
Um espirito habita a immensidade: Uma ancia cruel de liberdade Agita e abala as formas fugitivas.
E eu comprehendo a vossa lingua estranha, Vozes do mar, da selva, da montanha... Almas irmans da minha, almas captivas!
Não choreis, ventos, arvores e mares, Côro antigo de vozes rumorosas, Das vozes primitivas, dolorosas Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares Rompendo, um dia, surgireis radiosas D'esse sonho e essas ancias affrontosas, Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existencia, Accordareis um dia na Consciencia, E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão, Cahir desfeitas, como um sonho vão... E acabará por fim vosso tormento.