Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal *Agua Furtada D'Um Original*

Portuguese poem

*Agua Furtada D'Um Original*

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(A Fernandes Costa)

Eu moro altivo é só n'uma trapeira, Onde as pennas das pombas deixam rastros; Exposta todo o dia á soalheira... E onde passa dormindo a vida inteira, Nas visinhanças limpidas dos astros!

Como na era feliz das serenadas, As graves castellãs nos seus balcões, E gothicas varandas recostadas... --Vejo, em baixo, passar as cavalgadas, Os enterros e as lentas procissões!...

Professo o culto só do far niente Deitado, todo o dia, num colchão... Na posição immovel d'um vidente... Fumando o meu cachimbo, eternamente, Com os tranquillos modos d'um sultão.

Ó filhas do spleen malfadadas Vãs poesias sem razão nem senso! Ó sebentas do estudo empoeiradas, E tristes quaes sultanas despresadas, A quem o grão senhor não deita o lenço!...

E vós teias d'aranhas inquietos Tecidos, onde o sol brilha e seduz!... Ó Musas que inspiraes os meus sonetos! Qual foi o deus, ó astros dos meus tectos! Que vos creou ao seu fiat lux!?

Sois vós que me escondeis, qual caracol, E servís de cortina e bambinellas... Quando eu declamo involto n'um lençol, E as visinhas que estão tomando o Sol A espreitar-me se põe entre as janellas!...

Ali tenho um cachimbo de cigano Sobre uns versos que fiz a uma Felicia... E onde puz um retrato de Trajano, Dentro d'um casacão diluviano, Soffrendo como Cesar de calvicia!

Nas paredes estão phrases symbolicas, E aqui e ali borrados a carvão: Uma Venus com ar de grandes colicas, Um santo d'umas barbas apostolicas, E dous frades jogando o bofetão!

Mais ao pé, tenho as cartas de namoro, E uma Biblia mui velha onde no fim... Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d'ouro... Tendo n'um grande pé chinello mouro, E vestido com ar de mandarim!...

Defronte ri sinistra uma caveira, A que puz uns bigodes com cortiça... E d'um truão a loura cabelleira... E me acompanha a rir da vida inteira Como um Marte do Papa ajuda á missa!

Ao lado mora-me um visinho manco Que faz dos sinos unico regallo... E gosa da união d'um saltimbanco, Que anda pintado de vermelho e branco, E toda a noute canta como um gallo.

Defronte uma visinha costureira, Doce lyrio que treme a um vento vario... Que canta a manhã toda e a tarde inteira... E tem deixado cá para a trapeira Duas vezes fugir o seu canario!...

Toda a noute o sineiro tem secretos Desejos de espreitar como é que eu passo!... Imita o som dos sinos indescretos... E canta, n'uma voz que abala os tectos, Ao som das cambalhotas do palhaço!

E assim eu vivo só n'uma trapeira... Onde as pennas das pombas deixam rastros... Exposta todo o dia á soalheira, E onde passo dormindo a vida inteira, Nas visinhanças limpidas dos astros!