Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal *De Noute*

Portuguese poem

*De Noute*

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A João de Deus

Elle vinha da neve, dos trabalhos Violentos, custosos, da enxada; Cantando a meia voz pelos atalhos.

A mulher loura, infeliz, resignada, Cosia junto á luz. O rijo vento Batia contra a porta mal fechada.

Ao pé havia um Christo, um ramo bento, E uma estampa da Virgem, colorida, Cheia de magoa olhando o firmamento.

Uma banca de pinho, mal sustida, Vacillante nos pés, um candieiro; Companheiros d'aquella negra vida.

O homem alto, pallido, trigueiro, Entrou; tinha as feições queimadas, duras Dos que andam com a enxada o dia inteiro.

A mulher abraçou-o. As linhas puras Do seu rosto contavam já tristezas De grandes e secretas amarguras.

Tinha chorado muito as estreitezas D'aquella vida assim! Talvez sonhado Um dia, com palacios e riquezas!

Elle deitou-se a um canto; fatigado D'erguer-se alta manhã, todos os dias, Mal voavam as pombas no telhado.

Lá fora, nuvens grossas e sombrias No pesado horisonte; elle assim esteve; --As noites eram asperas e frias.--

Ella cobriu-o d'uma manta leve Esburacada, velha;--no telhado Ouvia-se cair, sonora, a neve.

Ella, então, meditou no seu passado; No seu primeiro beijo; nas lembranças Talvez, do seu vestido de noivado.

E nas tardes das eiras; e das danças Ás estrellas, e aquella vez primeira Que a rosa lhe furtou das longas tranças!

E aquella tarde junto da amoreira, Que trocaram as mãos; e na janella; E quando olhavam, juntos, a ribeira.

E quando era timida e singella... .......................................... Lá fóra, dava o vento nos caixilhos; Não brilhava no ceu nem uma estrella.

E, áquella hora da noite, por que trilhos Andariam no mundo--ella scismava-- Nas miserias, talvez, sem rumo, os filhos!

Elle na manta velha resonava.