Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal *Debaixo Das Hervas*

Portuguese poem

*Debaixo Das Hervas*

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Podesse ir eu comtigo que m'encantas Como um vinho, no pó da terra dura, Dormir ambos na mesma sepultura, Entre os braços das hervas e das plantas?

Dormir no mesmo leito, e a mesma cova Sentir os nossos pallidos abraços, De noite, quando branca nos espaços, Nas hervas desmaiasse a lua nova.

E aquellas tristes cousas que disseram Os meus olhos nos teus, adormecidos, Dizel-as outra vez, já confundidos Na poeira d'aquelles que morreram.

Sentir, meu bem, de novo, as tuas tranças, Com que tu tantas vezes me vestiste, Enlaçarem-me ainda, á hora triste, Em que os astros reluzem como lanças.

E entre as hervas da terra, e os acres cheiros Dos cyprestes, dizer as cousas mil Que diziamos, ó triste! quando abril Fazia colorir os teus canteiros.

E debruçada estavas á janella Nas horas religiosas do Poente, Como a mãe que anciosa e docemente, Espreita no horisonte a amada vella.

E quando íamos depois as nossas magoas Contarmos, pelo espesso das folhagens, Cabellos desmanchados nas aragens, E entre as vozes das folhas e das aguas.

E todas essas cousas que me dizes, Quando estás debruçada na costura, E que inda nunca ouviu a terra dura, E que chorar fariam as raizes!

E eu quizera que o lenho do cypreste, --Marco escuro da terra que nos come! Enlaçado tivesse o nosso nome, Como um lenço bordado que me déste!

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Podesse ir eu comtigo, que m'encantas Como um vinho, no pó da terra dura, Dormir ambos na mesma sepultura, Entre os braços das hervas e das plantas!