Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal *Farça Triste*

Portuguese poem

*Farça Triste*

by

Listen in the reader

Je suis son pére. (Flaubert)

Ninguem diria ao certo a edade que teria! Era um velho devasso e histrião--bom guia Para mostrar de noute, aos baços candieiros, As casas de bordeis aos velhos estrangeiros.

Encontravam-o sempre a errar, imbecilmente; Era alto, magro, hostil, e dava-se á aguardente--

Tinha um certo tremor em todo o corpo--o vinho Dava-lhe um rir constante; tinha o sorrir mesquinho E dubio que nos faz arrepiar mau grado;-- Fôra mendigo e actor, ladrão, bobo e soldado.

Tinha os habitos vis e as farças de caserna, Ninguem sabia mais os casos de taberna; Como era magro, esguio, e alto como um cypreste Dobrava para o chão; o sopro do nordeste Fazia-o tiritar; tinha os labios fendidos, E uns oculos azues e linho nos ouvidos.

No entanto segue o Mal varios e negros trilhos! O livido truão tinha mulher e filhos Esfomeados, nus, amados com paixão; Por elles fôra tudo:--actor, bobo e ladrão.

Quando voltava á noute, as lividas creanças Rotas, velhas da fome, ella soltas as tranças, Desfeita, emmagrecida, esqualida, doente, Faziam-o chorar a vida e a aguardente.

Injuriava Deus. Elle é sublime e augusto, Bello celeste, bom; dizem-o grande e justo, E habita são, feliz, de soes agasalhado, Em quanto os mais tem fome, e que elle acabrunhado

Era velho e ladrão! Tinha accessos, delirios, E apostraphava o Ceu hermetico aos martyrios, Abraçava a mulher e os filhos, e de novo Saia;--d'esta vez, voltava com um roubo!

Quando voltava então, os prantos da alegria Tornavam-os boçaes,--e o pão era uma orgia!

A mulher tinha um rir alegre e natural, E elle magro e faminto, exhausto, machinal, Chorava como um pae; tinha olvidado o inferno, A misería, a desgraça; era boçal e terno; Tinha um ar virtuoso e angelico; os pequenos Cansados de soffrer a fome, o frio, ao menos Sabiam comer bem! Eram emfim felizes! Não rojavam na terra a devorar raizes! Comiam-lhe o seu pão! Custara-lhe trabalho! Coitados! sempre assim, sem pão nem agasalho! Era uma vida atroz, ingrata vil, escura! Não tinham de comer, não tinham cobertura! Tossiam tanto á noute!--Ah! Deus era um ingrato!

E os prantos em roldão cahíam-lhe no prato.