Portuguese poem
_A L.C._
by Augusto Gil (1873–1929)
Num andamento Discreto, lento, Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.
Vamos vogando No lago brando E sem limites do silencio amigo...
O ultimo e cavo Accorde do cravo Ficou vibrando exclamativamente.
E, em espiral Ascencional, Cingiu-nos num abraço enlanguescente.
Na alcatifa macia Entrou na agonia Uma rosa sedenta e abandonada,
E a ambos nos invade A mistica vontade D'entrar na morte, no não ser, no nada...
Com seu docel vermelho Forrado d'oiro velho, Que evoca velhas eras d'esplendor,
O leito pesado, Como um deus concentrado, Remembra obscuramente o nosso amor...
Na atmosphera morna O teu corpo entorna Um perfume subtil, sensual, complexo,
Aroma inapagavel, Philtro informulavel Gerado á chama clara do teu sexo.
Teus olhos silentes E transparentes Teem, no fundo, verdes melancolicos,
E as brazas do fogão, Já quasi extinctas, dão Clarões hypnotisantes e symbolicos...
Amêmo-nos assim Com um amor sem fim, Verdadeiro na carne e nas ideias;
P'los dedos enlaçados Sejamos penetrados D'amor, até ás mais miudinhas veias.
Em extasis intensos Quedemo-nos suspensos Por sobre a terra ironica e brutal
Sem nada saber, Sem nada ver, --Numa vida isolada e musical...
Não fales. Não? Ou se o fizer's, então Que seja de vagar, muito baixinho,
Numa toada, leve Como o halito breve Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho...