Portuguese poem
A Máscara
by Augusto Gil (1873–1929)
A Santos Tavares
Por acaso, parou na minha frente, De loup e dóminó de seda negra, Uma mulher d'olhar resplandecente E mento breve de figura grega.
Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas...
E os seus olhos doirados reluziram Como os punhaes ao sol, quando se tiram, Aguçados e frios, das bainhas.
--Máscara, quem és tu?
--E tu quem és?...
--Um homem que te viu e te deseja...
E um riso vago, de desdem talvez, Floriu na sua bocca de cereja.
Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.
Em vibrações entrecortadas, sêccas, Tiniam taças irisadas, cheias. E uma phrase d'amôr, toda em colcheias, Vibrava nas arcadas das rebecas.
Levei-a para o vão duma janella. --Máscara, quem és tu?
--Para que insistes?...
Outro riso subiu da bocca della Aos olhos enigmaticos e tristes.
E descobriu a face. No capuz Emoldurou-se um rosto lindo e sério.
Que differente porém do que eu supuz!
A gente nunca deve entrar com luz Nos divinos recantos do misterio...