Versos Portuguese Augusto Gil A Parábola Do Pucaro D'Agua

Portuguese poem

A Parábola Do Pucaro D'Agua

by (1873–1929)

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Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas realidades da vida, teriam observado que... o viver do povo encerra em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos theatraes.

... O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do lar, nestas sombras de Rembrandt.

MICHELET. O Povo

A Manuel Penteado

Buscava em algum assunto adrede A versos que inculcassem novidade, Quando uma intensa e irreprimivel sêde Me fez voltar do sonho á realidade.

E pedi agua (já se vê) que veio Consoante é d'uzo cá por entre o povo Num pucaro de barro ingenuo e feio, Servindo-lhe de salva um prato côvo.

Bebi o liquido dum trago só; E dito o «Deus te pague» habitual, Subi de novo a escada de Jacob No heroico intuito de escalar o ideal...

Mas o idealismo é como a nevoa ondeante Que os rios erguem pela madrugada; O olhar destingue-a, quando está distante, E da que nos rodeia--não vê nada...

De que serve afinal tentar a gente Reter, dentro das mãos, fumo de palha, Se aqui, aos nossos olhos, no existente, Ha tanta coisa que os attráia e valha?...

A agua vinda neste vaso fragil Que um ignorado artista modelou Num gesto--já mechanisado e agil-- Á força d'imitar o que encontrou,

É um assunto cheio de belleza, Cheio de claro e alto ensinamento. Assim na branda fala portuguêsa O désse eu, como o tenho em pensamento!...

A agua é como a esp'rança Que a tudo se sujeita... Onde quer que se deita Lá fica humildemente acommodada, Seja a concha da mão duma creança, Ou a taça lendaria da ballada...

Tanto sacia Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma (Que um só valia O rútilo oiro d'avaro banqueiro) Como a que se toma Na argilla porosa, Alegre trabalho dum simples oleiro...

E é Até Bem mais saborosa No barro suarento Deixado á janella, Que num opulento Copo lavrado Que seja pertença de rica baixella E sonho gentil, cinzel phantasista Dalgum grande artista Dos raros d'agora, ou do tempo afastado...

Bichos humanos, féras em pé, Sêde bondosos como a agua o é...

No luzente alcantil da magnitude, Ou no áspero declive da pobreza, Nunca cerreis o espirito á virtude, Nunca fecheis os olhos á belleza. Que todo o coração, Desde o sabio de genio ao cavador, Seja o Calix de paz e de perdão Contendo a agua limpida e lustral Dum irmanado e perpetuo amôr...

Agua que limpe a mácula do mal E mitigue a miseria, a ancia, a magua Desta cruenta e impiedosa guerra Em que tantas creaturas se consomem.

Nem só da agua Que vem da terra Tem sêde o homem...

Nasce uma fonte Rumurejante Na encosta dum monte;

E mal que do seio Da terra brotou, Logo o seu veio Transparente E diligente Buscou e achou Mais baixo logar...

E sempre descendo, E sempre a cantar, Vae andando, Galgando, Vencendo, (Ou tenta vencer...) Folha, raíz, areia, o que tolher A sua descida...

Ao brotar da dura frágoa --É uma lagrima d'agua...

Mas esse humilde fiozinho, Que um destino bom impelle, Encontra pelo caminho Um outro que é como elle...

Reunem-se, fundem-se os dois, Proseguem de companhia, E fica dupla depois A força que os leva e guia...

Junta-se aos dois um terceiro, Outros confluindo vão, E o regato é já ribeiro E o ribeiro é rio então...

E nada agora o domina Ao fiozinho da fonte. Entre collina e collina, Ou entre um monte e outro monte,

Caminha sem descançar, Circula atravez do mundo --Até á beira do mar Omnipotente e profundo...

Da altura em que estejaes (ou vos pareça; A vaidade é uma amante enganadora) Que o mais alto de vós se humilhe e desça Como se humilde e pobre sempre fôra...

E que os demais desçam tambem de todo O orgulho e mando sobre escravas gentes Até ao valle, de lagrimas e lôdo Onde a miseria brada e range os dentes.

E como as aguas que se vão juntando E juntas, e cantando, vão descendo, Reuni o choro derramado, quando Atravessardes esse valle horrendo.

E o atoleiro que se havia feito No val, dantesco, pútrido, sombrio, Mudar-se-ha no irrigante leito Dum fertilisador e claro rio;

E o rio, andando, andando, hade alargar --Com biliões de lagrimas vertidas-- Num infinito e luminoso mar De novas e amplas e cantantes vidas!

Outubro de 1909.