Versos Portuguese Augusto Gil Carta A Um Rapaz Sentimental

Portuguese poem

Carta A Um Rapaz Sentimental

by (1873–1929)

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«Um mover d'olhos brando e piedoso Sem vêr de quê; um riso brando e honesto Quasi forçado; um doce e humilde gesto De qualquer alegria duvidoso

* * * * *

Um encolhido ousar; uma brandura, Um medo sem ter culpa; um ar sereno, Um longo e obediente soffrimento.

* * * * *

Camões

Num quente e perturbante fim de tarde, Cujo magnetico e profundo enlevo Ainda agora em mim crepita e arde, Como se fosse a tarde em que te escrevo,

Ergui os olhos distrahidamente, A ver se já brilhava alguma estrella No concavo do céu opalescente --E vi, numa varanda, os olhos della...

Do episodio que acabo de contar-te Tão simples, tão banal, que dá vontade, Para lhe pôr um boccadinho d'arte, De lhe roubar um pouco de verdade,

Foi que este amor espiritual nasceu, Nasceu, cresceu e se tornou eterno... Repara, amigo, como olhando o céu A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

Mas quem podia então adivinhal-o? O olhar dessa mulher era tão lindo Que deslumbrado me fiquei a olhal-o. Descera a noite. A lua ia subindo...

Era lua cheia e, para mais, d'agosto; Dava em toda a varanda. Assim, eu via As fórmas portuguêsas do seu rosto Nitidamente, como á luz do dia.

E cá dentro de mim senti nascer A dúvida, a incerteza, a hesitação Sobre o que mais desejaria ser: Se o noivo della, se o primeiro irmão...

Uma estrella cadente reluziu Por sobre as torres da vizinha egreja, Pensei commigo: Deus o decidiu: É minha noiva que Elle quer que seja.

Não dizia ventura, mas desgraça, A claridade do signal aereo. (Na mesma direcção da egreja, passa A rua que vae dar ao cemiterio...)

Porém, como querendo agradecer-me A decisão que attribuira a Deus, Inclinou-se de leve para ver-me E os doces olhos demorou nos meus.

Sob a caricia desse olhar cinzento, Que ao abaixar-se parecia negro, O coração que me batia lento, Mudou o andamento para alegro.

Uma hora decorreu. Outras passaram. Passaram, foram-se; e naquelle enleio Que tempo os nossos olhos conversaram!... Estava a noite já em mais de meio.

Vinha dos montes uma brisa ardente. O céu ganhára tons d'azul cobalto. O luar cahia silenciosamente. Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

Arrependidos, ou então, cançados De se fitarem com demora em mim, Os seus olhos piedosos e sagrados Ao dialogo d'amor puzeram fim.

Desviára-os; e entre as palpebras discretas, Poisára-os nas mãos claras e pequenas, Como se foram duas borboletas Voando para duas assucenas.

Ergueu-se. O busto delicado e fino Tinha os suaves, religiosos traços Da Virgem num altar. Só o Menino Faltava na doçura dos seus braços...

Num olhar impregnado de candura, Disse-me adeus e recolheu. Depois... A luminosa noite fez-se escura. Calaram-se na sombra os rouxinoes.

Entrei em casa e quiz dormir. Raiára A madrugada sem que o conseguisse. Quem um sonho tão limpido sonhára, Inutil se tornava que dormisse...

Annos felizes neste amor gastei. Vieram em seguida as horas más. O que nellas soffri, o que passei, Um dia, noutra carta, o saberás.