Portuguese poem
Ballada Da Neve
by Augusto Gil (1873–1929)
Verlaine
A Vicente Arnoso
Batem leve, levemente Como quem chama por mim... Será chuva? Será gente? Gente não é certamente E a chuva não bate assim...
É talvez a ventania; Mas ha pouco, ha poucochinho, Nem uma agulha bolia Na quieta melancolia Dos pinheiros do caminho...
Quem bate assim levemente Com tão estranha leveza Que mal se ouve, mal se sente?... Não é chuva, nem é gente, Nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve cahia Do azul cinzento do ceu Branca e leve, branca e fria... --Ha quanto tempo a não via! E que saudades, Deus meu!
Olho-a atravez da vidraça. Poz tudo da côr do linho. Passa gente e quando passa Os passos imprime e traça Na brancura do caminho...
Fico olhando esses signaes Da pobre gente que avança E noto, por entre os mais, Os traços miniaturais Duns pézitos de creança...
E descalcinhos, doridos... A neve deixa inda vel-os Primeiro bem definidos, --Depois em sulcos compridos, Porque não podia erguel-os!...
Que quem já é peccador Soffra tormentos, emfim! Mas as creanças, Senhor, Porque lhes daes tanta dôr?!... Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza Uma funda turbação Entra em mim, fica em mim prêsa. Cae neve na natureza... --E cae no meu coração.