Portuguese poem
Tristeza
by Fagundes Varela (1841–1875)
Eu amo a noite com seu manto escuro De tristes goivos coroada a fronte Amo a neblina que pairando ondeia Sobre o fastigio de elevado monte.
Amo nas plantas, que na tumba crescem, De errante briza o funeral cicio: Porque minh’alma, como a sombra, é triste, Porque meu seio é de illusões vazio.
Amo a deshoras sob um céo de chumbo, No cemiterio de sombria serra, O fogo-fatuo que a tremer doudeja Das sepulturas na revolta terra.
Amo ao silencio do hervaçal partido De ave nocturna o funerario pio, Porque minh’alma, como a noite, é triste, Porque meu seio é de illusões vazio.
Amo do templo, nas soberbas naves, De tristes psalmos o troar profundo; Amo a torrente que na rocha espuma E vai do abysmo repousar no fundo.
Amo a tormenta, o perpassar dos ventos, A voz da morte no fatal parcel, Porque minh’alma só traduz tristeza, Porque meu seio se abrevou de fel.
Amo o corisco que deixando a nuvem O cedro parte da montanha, erguido, Amo do sino, que por morto sôa, O triste dobre n’amplidão perdido.
Amo na vida de miseria e lôdo, Das desventuras o maldito sello, Porque minh’alma se manchou de escarneos, Porque meu seio se cobriu de gelo.
Amo o furor do vendaval que ruge, Das azas negras sacudindo o estrago; Amo as metralhas, o bulcão de fumo, De corvo as tribus em sangrento lago.
Amo do nauta o doloroso grito Em fragil prancha sôbre mar de horrores, Porque meu seio se tornou de pedra, Porque minh’alma descorou de dôres.
O céo de anil, a viração fagueira, O lago azul que os passarinhos beijam, A pobre choça do pastor no valle, Chorosas flôres que ao sertão vicejam,
A paz, o amor, a quietação e o riso A meus olhares não têm mais encanto, Porque minh’alma se despiu de crenças, E do sarcasmo se embuçou no manto.