Portuguese poem
*A Alma Que Passa*
by Fernando Pessoa (1888–1935)
*I--Sentido*
Fujo de mim como um perfume antigo foge ondulante e vago de um missal e julgo uma alma estranha andar commigo, dizendo adeus a uma aventura irreal.
Sou transparencia, chamma pallida, ansia, ultima nau que abandonou o caes. No alvôr das minhas mãos chora a distancia prôas rachadas, longes de ouro, ideaes...
Sonho meu corpo como de um ausente, naufrágo e exsurjo dentro da memoria, accórdo num jardim convalescente,
vago perdido em outros num jardim, e sinto no clarão da ultima gloria a sombra do que sou morrer em mim...
*II--Legenda*
A Vida é uma princeza dolorosa no seu castelo de rubis e opalas, tanjendo ao poente em harpa silenciosa uma agonia de almas e de falas...
Colho de tuas mãos a triste rosa, Vida que és sombra e sobre mim resvalas. Passas, e em tua sombra a ondear saudosa vagam fantasmas de desertas salas...
(Vozes perdidas, juramentos a esmo, passos que morrem sobre passos, sinos accórdam madrugadas em mim mesmo.
E entre trompas, tambores e metralha, claveharpas, orgãos, tubas e violinos a Vida e a Dôr começam a batalha...)
*III--Genese*
Antes a alma que tenho andou perdida, foi pedrouço a rolar pelo caminho, topazio, opala, perola esquecida num bracelete real; foi caule e espinho,
bronze que a mão tocou, aurea jazida por entre as ruinas de um paiz maninho, e reflectiu, fatal, o olhar da Vida no corpo em sangue de um estranho vinho...
Foi casco medieval, foi lança e escudo, foi luz lunar e errante de lanterna, e depois de exsurgir, triste, de tudo
veio para chorar dentro em meu ser a amarga maldição de ser eterna e a dôr de renascer quando eu morrer...