Portuguese poem
A Cigana
by Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (1834–1895)
Lá corre a morena, levando faceira Na cinta punhal, Veloz como a ema saltando ligeira Por montes e val !
Gentil, engraçada, Dissereis levada Por artes de amor ! Agora fugindo, Sorrindo Innocente, Lá vai de repente Pulando… Brincando… Fallando… No prado co’a flor.
A linda trigueira cançada sentou-se No verde tapiz ; Mas—logo—um momento de pé levantou-se Contente e feliz.
—«Travessa menina, Vem ler minha sina, Não fujas, vem cà !» Chegou-se a cigana, Que engana Innocente Com ditos a gente, Saltando… Gyrando… Cantando… No seu patuá.
Que vida de louca ! Que amores ! Que ditos ! Que voz que ella tem ! Seus olhos são grandes, são pretos—bonitos— Relusem tão bem !…
Que momo engraçado! Seu pé delicado Mal toca no chão ! Arfava-lhe o seio De enleio Innocente ! Olhou me de frente, Parando… Corando… Scismando… Trovou-me da mão.
Medita enleiada,—talvez vergonhosa,— Das graças que fez. Agora tremendo parece uma rosa Cahindo de vêz !
—«Que sentes, morena ? Acaso tens pena Que eu morra por ti? Que sorte, querida ! Que vida, Innocente ! Viver docemente Te amando… Brincando… Beijando… Teus labios—aqui !
Olhou-me raivosa ! Seus labios tremendo De vivo coral São mudos, não fallam.—Nos ares movendo Mostrou-me o punhal.
—«Que genio tão forte ! Me dás cruel morte Por beijos, ó flor ? ! Crueza de ingrata ! Pois mata, Innocente ! Qu’eu saiba somente; Te amando… Brincando… Folgando… Que a morte é de amor !»
A linda cigana tirando do seio De clicia um balão, Fallou ás folhinhas com susto e receio, Contando-as na mão.
Agora sem medo Mansinha do dedo Tirou-me um annel : Então já fugindo, Sorrindo, Innocente, Me diz de repente, Pulando, Voando… Cantando… «Serei-te fiel !»
E foi-se a cigana, levando faceira Na cinta punhal, Veloz como a ema saltando ligeira Por serras e val.