Portuguese poem
A Somnambula
by Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (1834–1895)
Alta noite nas trevas perdida Branca sombra de um’alma sentida Aerea caminha… caminha á voar !…
Parece a neblina levada do vento, Da noite ao relento Phantasma que a mente costuma sonhar !
Lá corre ligeira… Talvez feiticeira Quem sabe si o é? Mas eil-a cançada, que agora parando, Medita scismando Ao longe—de pè !
Das estrellas á luz frouxa, escaça Mais se eleva e medonha se exalça Nas trevas a sombra que surge acolá ! Cheguemos ao perto…—Meu Deus que mysterio ! Emblema funereo De negros pezares acaso será ? !
Ai ! pobre menina ! Gentil peregrina Desprende o teu véo ! Estatua não falla : seus labios abertos Murmuram concertos Dos anjos do céo !
Tem a face sem cor desmaiada, Meiga rosa talvez desbotada Em lubricos gozos de immundo prazer ! Dos olhos o lume tão languido, escaço, Vagueia no espaço Buscando as estrellas que avista sem vêr !
Coitada ! que vida ! Tão moça perdida Dos annos na flor ! Oh pallida sombra de virgem serena ! Incauta açucena, Tu morres de amor ?…
Não responde : nos labios o riso Da donzella bem mostra que o siso Perdera-se em norte de orgia infernal ! Um anjo dissereis da graça cahido, De todo perdido, Perdido nas trevas chorando o seu mal !
Oh louca amorosa ! Gentil mariposa, Não fujas de mim ! Eu quero em teus braços a vida de amante Passar um instante Beijando-te assim !
Frio vento soprou-lhe os cabellos, Desprendidos e soltos e bellos, Quaes harpas celestes dos anjos de Deos ! São notas aereas o canto da briza. Que assim se deslisa Nas cordas sonoras, voando p’ra os céos !
Que doce belleza ! Si d’alma a pureza Não desses de mão, Serias, ó bella, de Deus invejada, Dos anjos amada Com louca paixão !
Não importa ! ha de amar-te minh’alma Co’este fogo que nunca se acalma Na tôrva existencia do meu padecer ! Comtigo abraçado no riso e nas dores, Morrendo de amores Farei a ventura do nosso viver !
Ai ! tremes, suspiras ? Amante deliras De amor que seduz ? !
Oh pallida sombra de virgem perdida ! Procura na vida Um astro uma luz !
E olhou-me calada chorando, E convulsa sorriu soluçando, Que o sangue gelar-se no peito senti ! Ideia de mortos a mente me assalta, Eis cresce e se axalta… Até que por teria tremendo cahi !…
Que sina !—dormia Em noite tão fria Correndo a sonhar ! Estrella nas trevas tremendo, luzindo, A pobre sorrindo Fugiu-me a voar…