Portuguese poem
Ii
by Francisco Palha (1827–1890)
Ia a noite em mais de meio quando os pés na sala puz. Os gritos, a dança, a luz que os novos encanta, e creio que mais os velhos seduz, tocaram-me o coração por tão estranha maneira, que a não ter ali á mão as costas d'uma cadeira, dava co'as minhas no chão. Persuadiam-me que a Sorte quer que o homem seja egual sómente perante a morte, e vi eu que o Carnaval tinha o mesmo poder forte!
Junto a mim o sôr Sovela, disfarçado em lord inglez, trata por tu o freguez, que n'outro tu se nivela com quem as botas lhe fez. Ao longe o sujo vadio que, para impingir á gente um bilhete do Pão quente, corre a Baixa e o Rocio dando Excellencias a rodo, agora vestido á turca, turca por dentro elle todo, grunhindo sem tom nem som paga depois da mazurka ponche ardente a quem tem Dom. N'aquelle canto escondido o calvo e gordo marido ás moças falla d'amor; e como deve o traidor pela traição ser punido, n'outro canto anda a mulher a brincar co'o deus Cupido... dê o brinquedo o que dér! Cada flôr, rosa ou jasmim, com seu calix entreaberto embalsama este jardim, e ás abelhas que andam perto como que as oiço dizer: --Oh! Bebei dôce prazer que rendida vos offerto!--
Isto é vida! Isto aqui, sim! que a humilde e santa egualdade o mundo mergulha emfim no sol da eterna verdade!...