Portuguese poem
Ix
by Francisco Palha (1827–1890)
Cheguei a casa. Quem ama tambem dorme o seu bocado; nem ha nada como a cama para amor ser bem tratado. Vêde as ratices do mundo! Sentados no mesmo throno amor, que é vida;--e o somno, que da morte é irmão segundo!...
Em tão doloroso trance é praxe no bom romance surgir a pallida insomnia beliscando a cachimonia do que ás paixões não se poupa; mas eu, que sigo outra lei, fui-me enroscando na roupa, e dormi. Fiz mais: sonhei.
Sonhei, sim. O que é sonhar? É fugir do captiveiro d'esta bola sublunar. A noss'alma, que gemia entre os ferros, encontrar a paz, o amor, a alegria, vivo, real, verdadeiro, o mundo da phantasia. É n'um divinal momento conquistar, possuir, haver o que nunca o pensamento, por mais audaz, ousou crêr que um dia á mão nos viria. Sonhar é vêr palpitante a toda a luz da existencia o pae, os filhos, a amante que a morte apartou de nós!
Ouvir-lhes a dôce voz... interromper essa ausencia eterna, a eterna saudade que nos deixára o perdêl-os! Sonhar é esta piedade do ceu pelas nossas dôres; esta mão cheia de flôres que Deus esparge nos gelos!-- Tudo mais são pesadelos.
Pois eu sonhei, e não digo o sonho que tive então. Não por ser segredo, não, que á terra desça commigo; mas quem tem, como eu, vergonha, mesmo ao leitor seu amigo nem sempre diz o que sonha.