Portuguese poem
Requerimento
by Francisco Palha (1827–1890)
Meu Couto Monteiro, senhor da Justiça que nunca, que eu saiba, saíu do tinteiro, e pae dos famintos que engolem á missa o corpo sem mancha do santo Cordeiro. Não rondo as arcadas fazendo-te esperas. Não subo as escadas que ascendem aos atrios das altas espheras, levando no bolso memoria sebenta que ha mais de mil annos requer um despacho, nem ponho o toutiço, já calvo aos cincoenta, em ar de tapete, em ar de capacho, no teu gabinete. Só quero dizer-te que tenho defronte da casa onde habito um sino maldito. Não sei se t'o conte... De dia, de noite, ao sol, ao luar, não faz outra coisa senão badalar! Nem elle repoisa nem deixa na rua ninguem repoisar!...
Ha quem me assevere que o demo mofino montado no sino se foi baloiçar!... Baloiça-te, pêrro! Engendra um badalo do vil pé caprino e dá-lhe um estalo! e dá-lhe a matar! Não tremas, sabujo! que o sino foi bento; mas sabes que as bençãos são cruzes no ar; levou-lh'as o vento.
Entrasse em teus ossos o meu rheumatismo; roesse a medulla; por noites e dias chumbasse-te o corpo n'um duro colchão; então saberias, ó filho do abysmo, verias então se assim te mexias!
O caso é que tu commigo caçôas e ris dos doutores, pois nunca tens dôres, e nem te constipas! e, mais, andas nu!
Parece impossivel! Dá volta á cabeça! Eu cá, homem serio, que gema e padeça; que em vindo janeiro me rape um catarrho!... E haver um brejeiro que passa o inverno sem chuvas nem lamas! quentinho nas chammas do próvido inferno! rival do Eterno! eterno elle mesmo! Sagaz Providencia, e és da justiça, do amor és a essencia!
Bem sei que o tal sino foi feito, fundido na terra dos cirios, da Carta, do hymno, d'aquelles quarenta de pêllo na venta que ao reino opprimido quebraram algemas d'um jugo ferino; e a Carta era um mytho, são presas do olvido os nomes e as glorias de heroes legendarios se os sinos dormirem nos seus campanarios qual dorme a memoria dos feitos illustres nas sombras da Historia. Ó Couto Monteiro, se a Carta está morta, o que é que lhe importa, que importa aos guerreiros em pó transformados, que toque ou não toque nas torres da Graça, da Sé, de S. Roque, o sino importuno masurkas e fados?! Nem isso os aquece, nem ha desafôro qual este que os templos agora profana passando dos palcos aos orgãos do côro, aos sinos de igrejas, a copla mundana.
Nem tu me perguntes: «Quem é que armarieis com mais alegria que o meigo innocente, do somno lethal que á treva o prendia, nos braços do Christo resurge immortal? Qual voz, como aquella, dos vivos implora por alma dos mortos a prece final?» Por isso!... por isso, meu Couto Monteiro! O vil não repica, nem geme, nem chora, senão por aquelles que teem dinheiro!
Que nasça, que viva, que durma na valla quem é pobresinho, sem festas nem dobres! O sino só tange conforme a tabella, só diz:--Baptisou-se, dos mortos só falla se o manda o sob'rano do reino dos cobres, a libra amarella! No ceu, felizmente, vigora outra escala na qual os primeiros são elles--os pobres, e poucos ricassos, que vão por engano.
Se és, qual eu julgo, christão verdadeiro. Meu Couto Monteiro, é justo que ponhas no prego o sineiro que á patria com fome propines uns nacos de sino em patacos: verás como os come.