Versos Portuguese Francisco Palha Libello

Portuguese poem

Libello

by (1827–1890)

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Le cynisme de l'apostasie. (Berryer).

Que graçolas são essas, senhor Palha? Que estulto riso sobre tudo espalha? Costuma attribuir-se a pouco siso O séstro folião do eterno riso. E cuidou tirar joias d'um thesouro? Cuidou ter dito bocadinhos d'ouro? Pilherias de matar, chistes d'arromba? Pois nunca embalde co'a razão se zomba, E com ella zombou no seu escripto. Uma coisa é espirito, outra esprito. Já vê que me refiro á carta-asneira Abrindo aos disparates a torneira Nas illustres columnas do Illustrado. Quanto fôra melhor estar calado! A defeza enterrou-lhe a protegida, Ha patronos assim; hoje é perdida A causa da Madama. Andou de leve Em tudo quanto disse, e nunca teve Hora mais infeliz. Veja: primeiro O seu grande argumento é--dá dinheiro! Que miseria inaudita! D'esse modo Bota abaixo a moral do mundo todo. Ó venenos subtis, ó ferros finos. Quem maldirá a mão dos assassinos Se vós rendeis milhões? Ó lupanares Da vil prostituição, nos seus cantares Passou-vos Palha carta de limpeza. Lucraes muito por dia? Santa empreza. Não quer saber de mais; o merecimento Afére-o pelo ganho; isto é nojento. A moral, a virtude, que lhe importa? O caso está em quanto rende a porta, A corrupção geral é que o deleita Dês que possa ser fonte de receita. A arte mascarou-se em traficante, A arte é chilrear e vêr sonante. E houve quem berrasse, e inda hoje berra, Contra o barbaro interesse da Inglaterra Envenenando a China? Que patetas! Não haviam mugir á vacca as tetas? Se vem sangue no tarro que tem isso? O sangue tambem faz bello chouriço. E fresquinha a Madama, e curto o fato? Diz elle que o reparo é caricato. Pois quanto mais a filha mostra a perna E a linguagem mais cheira a taberna Mais acode o concurso hoje em Lisboa Que até na côrte, em gripho, inda resôa A fama de Cascaes e os lindos fados Que por lá se dançaram, e os trinados Da banza afidalgada; haja folgança Que n'este mundo ha só prazer e pança. Na insulsa peça o Palha chocarreiro Só dá voto de peso ao bilheteiro; Com este é tudo bom. Frivolidades. Phrases regateiraes, e necedades; A praça da Figueira, emfim, na scena. Sem um dito sequer que faça pena De não lembrar depois; eis o encanto Do Palha da Trindade; e faz-lhe espanto Que os da Nação não saltem d'alegria, E ratos diz que são de Sacristia... Alto lá, senhor Palha, mais decencia. Não se emporcalhe assim Vossa Excellencia. Não bula na Nação, que o trouxe ao collo, Que passa por ingrato, além de tolo. Pois não andou por lá de noite e dia? Não foi rato tambem na sacristia? Então o dizer mal mui mal lhe fica; Embora n'outra parte arme a futrica. O bonito é caluda. Se hoje adora O que d'antes queimára, rôa agora Nas lonas do theatro, chupe azeite Dos candieiros da rampa, mas não deite Só por na corrupção viver contente Má fama da que fôra sua gente. Que mal lhe fez á bolsa, em que só pensa, A antiga tradição, a antiga crença? Desertou; e bem viu que foi tranquillo. Nenhum tiro se deu a perseguil-o. Nenhuma voz se ergueu bradando--raca--, Nem ninguem lhe puxou pela casaca. Virou-a como quiz; e nem as trovas D'aquelle José Paes de Torres Novas Ninguem lhe recordou: assim, nem pio, Que mais calvo o farão, e inda faz frio. Se seu honrado pae resuscitasse Como o rubor lhe subiria á face Vendo o filho truão na patria cara Cuspir injurias, com facecia ignara; Vendo o filho nos tempos em que vamos Morder insano a procissão de Ramos! Que tem, que póde ter gambia obscena, Em anzol de patacos sobre a scena, Com pia procissão, qualquer que seja, Dês que tem por escudo a Santa Egreja? Como o tal velho Palha encresparia O sobr'olho a toda esta porcaria? Vêr seu filho gabando os assobios D'amoladinhos vãos e de vadios; Censurar a gravata séria e lisa; O pé fresco exaltar; gente em camisa; Ser-lhe, emfim, tudo antigo de quizilia E comicos só ter como familia!... Ó manes venerandos e embécados Dos Desembargadores, sois trocados Na voz do filho e neto, em sêde d'ouro. Por titeres do palco! Forte estouro Levava o tal amigo se surgia Toda a Palha anciã, se não morria De vergonha outra vez, que é coisa dura Ver por nossos mordida a sepultura! Mas basta, senhor Palha, e se inda a fome Lhe exige mais roer, roa em seu nome.

(A Nação).