Portuguese poem
Sentença
by Francisco Palha (1827–1890)
Estes autos correndo folha a folha, d'elles fica provado á saciedade que tem bolha a Nação, e que tem bolha o Palha da Trindade. Marfára-se o jornal só porque em scena mostrára certa artista uma das pernas gordas, e essa--obscena. O Palha redarguiu: que era uma pena e, mais, uma injustiça tratar como se fôra de corista a perna d'uma actriz--das de mão cheia; --que a perna era a cubiça do velho jornalista; --que o ferro d'elle, o ferro... era que a meia cobrisse aquella gambia tão roliça; por fim--que era um sacrista... insulto enorme a quem ajuda á missa!
Ás partes deu-se vista da perna questionada. Era postiça.
Recalcitra a Nação, accesa em febre: --que fôra burla torpe, e facto novo em terra portugueza, dar-se ao povo um gato em vez de lebre. --Que falsa ou verdadeira a perna fosse, de rama d'algodão, ou simples cana, sempre era perna, e gratis dava um dôce a quem de lhe morder não désse a gana. D'ahi a grave offensa á pureza moral da raça humana; a indignação immensa d'uma sã consciencia ultramontana! --Que o Palha tambem fôra antigamente irmão na sacristia levantando a ração, conforme a havia, e sempre com bom dente. --Que lá n'um bello dia fugira como um burro cacilheiro sem lhe gritarem: Chó!... Que santa gente!
Que o réles emprezario, tendo o fito nas cruzes do dinheiro, trazia todo inteiro, aos pinchos, dentro em si, um vil cabrito: a fórma d'animal mais predilecta do Belzebuth maldito quando a noss'alma empanzinar projecta. --Que os paes, avós, emfim toda a Palhada que jaz na cova, qual vivera, honrada, por causa da tal perna ficára condemnada d'uma eterna vergonha á dôr eterna. O réo contesta, e diz: --Que era verdade haver por lá andado; mas n'uma tal edade que não chegára nunca a ser ferrado. --Que o tinham n'um cerrado onde brotava apenas a Saudade; constante era a estiagem; o ceu caliginoso; de lagrimas sómente a beberagem; por festa o cardo; espinhos só por goso. --Que tiritando ali, aguado o pêllo, extincto o movimento, transportado se vira n'um momento ás pávidas mansões do eterno gêlo. --Que, lá muito de longe, a Liberdade lhe fez então negaças.
«Tens frio?... Vem. Aqueço. A escuridade é de razão deixal-a á sepultura, veu das caveiras, manto das carcassas! Chama-te a luz! a luz que vem da altura dos iriados ceus!... Surge!... Caminha!... Quanto mais caminhar a humanidade do espirito de Deus mais se avisinha.»
Apoz da seducçáo d'aquelle canto, ouvindo aquelles hymnos, homem por elles feito, erguida a fronte, partira ancioso em busca do horisonte onde, envolvida em nimbos purpurinos, c'roada d'amaranto, a deusa refulgia. Partira. Fôra. E não se arrependia.
Conspurcal-a pretendem? Na passagem cospem-lhe insultos? Baixam-lhe a pagode o templo augusto? Arrastam-na á voragem? Ella é pura sempre; é sempre forte! Póde velar seu rosto; só não póde, sem que renasça, captival-a a morte!
E disse mais. E disse d'esta sorte: --Que mesmo ao Santo Padre, e mais é santo, não faz o dinheirinho um mau cabello... nem, em nome de Pedro, recebêl-o. Para engeital-o, em menospreço tel-o, nas mãos como José largar-lhe o manto, um pobre peccador e Belisario, seria necessario que fosse um dromedario; que fosse um gran camêlo!
--Que exhibir uma perna no theatro não era nada comparado ás quatro sobre as quaes a Nação a qualquer hora vae, cabisbaixa, manquejando legoas por esse paiz fóra.
--Que em seu rancor profundo, sendo christã, não dera ao menos tregoas áquelles que dormiam descançados nas sombras do outro mundo!... Coitados!... Sim; coitados! Empenharam-se juntos na batalha em pró do mesmo rei. Nos mesmos fossos o mesmo pó morderam. Na mortalha nem isso lhes valeu! Ai! pobres ossos!
Ouvidos por tal fórma ambos os lados; e --Sendo mais que certo que a folha authora, os olhos pondo em Christo, por um cantinho d'elles já tem visto pernas no palco, e pernas mais ao perto, sem que torça o nariz ou mostre nojo; --Não podendo a Moral chegar tão longe que exija a cada canto um Varatojo, nem de cada mortal engendre um monge dormindo sobre o tojo; e Visto que a Nação no seu ataque foi rude, e foi cruel, e deu motivo do Palha ao fogo vivo que a poz, no ardor do saque, pouco mais, pouco menos, como um crivo;
--Sendo que o Palha, embora na defeza, faltou ás leis da guerra contundindo a Nação prostrada em terra; inutil, bestial, impia fereza, inda em cima aggravada na certeza de estar sovando um martyr; Attendendo a ter o mesmo reu a consciencia do mal que procedia quando, esquecendo a antiga convivencia por futil ninharia, em vez de lhe deitar logo um remendo se poz a esg'ravatar na porcaria; Manda a Justiça, a cega, a que é machucha, a pomba immaculada, a fossil que nem chucha nem consente sequer em ser chuchada; ordena a incorruptivel,--Deus lhes valha!... que vejam bruxa os dois! Veja uma bruxa a bruxa da Nação! Veja outra o Palha.
Assim, condemno os dois da vida airada.
Em castigo ao jornal seja o Libello, n'um livro, publicado. E que o releia, (pequena penitencia ao grande excesso!) quem á bilis soez abriu a veia. Saibam-lhe a fel, e trinque-os sempre á ceia, os fructos do seu odio! Dal-o ao prelo, dar-se a si mesmo em elzevir impresso, jungidos ambos, presos n'um só elo, do Palha a pena seja, e o seu flagello!
Na mesma falta incursos, e n'outra falta ainda, a de recursos, paguem os dois as custas do processo.