Versos Portuguese Gonçalves Crespo Iii

Portuguese poem

Iii

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No cáes ha o moirejar das fabricas ruidoso; Feroz e discordante Juncta-se á voz humana o arfar estrepitante Dos valentes pulmões das machinas inglezas.

Em novellos, ancioso, Golpham as chaminés o denso e o escuro fumo Que ascende e toma o rumo Do claro e vasto azul, vazio de tristezas.

Como um cetáceo ingente, encarvoado e feio Um enorme Vapôr De outros avulta em meio. Em seu largo convez a marinhagem canta E na faina febril as ancoras levanta.

Naquella espessa náu, um velho, um lavradôr Entre a faina do cáes, fita o dolente olhar... É que ali dentro vão os bois, o seu amôr... E áquella magoa intensa E inenarravel dôr Responde a descuidosa e gelida indifferença Dos Homens, e dos Céus, e do profundo Mar...

AO RABEQUISTA EUGENIO DEGREMONT

Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1876 no theatro de S. João do Porto

Vêde-o! É tão creança! ó mães, olhae-o! Como é vivo o fulgor e ardente o raio Que vibra nesse olhar! Faz gosto vel-o assim tão pequenino Enlevado nos sons do violino A sonhar, a sonhar...

E ao passo que a sua alma vae sonhando, Vão-se ante nossos olhos desdobrando Quadros a mil e mil. A rabeca suspira? Assim amenas São na longinqua roça as cantilenas Das moças do Brazil.

Vibra rispidos sons? E logo ouvimos Curvar o vento da floresta os cimos Com ruidoso fragôr... E uivam pintadas onças e as araras Roçam, fugindo, as tremulas taquaras, E crocita o condôr.

Enterrados nas humidas pastagens Mugem raivosos bufalos selvagens, E por entre os sarçaes Pula a panthera; os jacarés astutos Choram, fingindo lacrymosos lutos Nos fulvos areaes.

Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas, São os negros soltando as lastimosas Canções do seu paiz; Sem familia, sem patria, sem amôres, Ninguem mitiga o fel daquellas dôres, Triste raça infeliz!

Agora, como em namorado anceio, Sae da rabeca um languido gorgeio Que enleva o coração. E a saudade repinta-nos ao vivo Dos sabiás o cantico lascivo Nas sombras do sertão.

Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto, Com meu olhar de prantos não enxuto, Ó creança gentil, Que em vez de perseguir as borboletas Vens batalhar no meio dos atletas E honrar o teu Brazil!

Não presumas, porém, prodigio das creanças! Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração; É mister trabalhar, sem isso nada alcanças; A gloria chamarás, ser-te-ha o appello em vão.

Pois que! tu cuidarás, creança, porventura Que sem luctar, soffrer, sem horridos tormentos O artista poderia erguer aos quatro ventos A Epopêa, o Drama, a Estatua, a Partitura?

Vamos, trabalha pois ó meu precoce artista, Dos precipicios ri, vinga-me o barrocal! Para o profundo azul estende a larga vista. Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!