Portuguese poem
Enfermou Clóri, Pastores
by Gregório de Matos (1636–1696)
Enfermou Clóri, Pastores, picadinha de um desdém, que até pagam as Deidades tributos ao bem querer. Mandou chamar o Barbeiro, para picar-se outra vez, que uma picada com outra se vem a satisfazer. Não quer Clóri, que lhe aplique no braço, senão no pé, que quem é tão soberana, não dá seu braço a torcer. Tomou-lhe o pé o Barbeiro, para n'água lho meter, e sendo a água tão pouca lhe custou a tomar pé. Água fria pediu logo, parecendo-lhe talvez, que com a quente pudesse tanta neve derreter. Desmaiou Clóri sentida por o golpe lhe doer, e à fé que custa o seu golpe gotas de sangue verter. Com sal na boca diverte o desmaio desta vez: mas boca de tanta graça nenhum sal há de mister. Que foi remédio supérfluo, se deixa bem conhecer, porque, quem é luz do mundo, sal da terra deve ser. Logrou aqui o Barbeiro semelhanças de Moisés, não da pedra tirar água da neve em sangue escorrer. Vingou Clóri no seu sangue o agravo, que lhe fez, que assim faz, que tão bom sangue, se é de ilustre proceder.