Portuguese poem
Emblema de amor mais puro
by Gregório de Matos (1636–1696)
Depois de crucificado vos admirei, bom Senhor, fino retrato do amor, quando vos vi retratado: então de um iluminado sanguinosamente escuro, se bem que estou mui seguro das finezas do Calvário, vos contemplei no sudário Emblema de amor mais puro
E suposto o pensamento se pasma do escuro enigma, mais o mistério sublima vendo-vos no Sacramento: ali meu entendimento conhecendo-vos tão claro, melhor esforça o reparo de que estais tão luzido, quando melhor comprendido Enigma de amor mais raro
Que no Sacramento estais todo, e toda a divindade, conheço com realidade, suposto que o disfarçais: para que vos ocultais nesse mistério tão raro, se a maravilha reparo, penetrando-vos atento, mais claroao entendimento, Que sendo à vista tão claro?
Que se de neve coberto fica o divino admirado, bem se pode um disfarçado conhecer melhor ao perto: porém vós andais tão certo, e tanto em recatos puro, que se ver-vos me asseguro nesse disfarce, em que andais, inda que patente estais, Sois também à vista escuro.