Portuguese poem
Não me espanto, que você
by Gregório de Matos (1636–1696)
Não me espanto, que você, meu Padre, e meu camarada, me desse a sua cornada sendo rês de Marapé: mas o que lhe lembro, é, que se acaso a carapuça da sátira se lhe aguça, e na testa se ajustou, a chuçada eu não lhe dou, você se meta na chuça.
E se por estes respeitos diz, que versos não farei à pedrada, que eu levei quando fazia os meus feitos: agora os dará por feitos, pois eu de boga arrancada a uma, e outra pedrada os faço, à que levei já, e à que agora você dá, que é inda maior pedrada.
Era pelo alto serão, fazia um luar tremendo, quando eu estava fazendo ou câmara, ou vereação: não sei, que notícia então teve um Moço, um boa-peça, pôs-se à janela com pressa tão sem propósito algum, que quis ter comigo um quebradeiro de cabeça.
Cum torrão na mão se apresta, e tirando-o com seu momo me fez o memento homo, pondo-me a terra na testa: fez-me uma pequena fresta, de que arto Sangue corria, mas eu disse, quem seria um Médico tão sem lei, que primeiro me purguei, do que levasse a sangria.
Ergui-me com pressa tanta, que um amigo me gritou, inda agora se purgou, tão depressa se levanta? Sim, Senhor, de que se espanta? Se este Médico, este tramposo é médico tão forçoso, que faz levantar num dia depois de curso, e sangria ao doente mais mimoso.
Este caso, e desventura foi na verdade, contado, e sendo eu por mim curado, o Moço me deu a cura: com uma, e outra brabura jurei, e prometi, que lhe daria um pontapé: mas o Moço acautelado me deixou calamocado para servir a você.