Portuguese poem
Que muito, que vivo alento
by Gregório de Matos (1636–1696)
De um barro frágil, e vil, Senhor, o homem formastes, cuja obra exagerastes por engenhosa, e sutil: graças vos dou mil a mil, pois em conhecido aumento tem meu ser o fundamento na razão, em que se estriba, se lhe infundis alma viva, Que muito, que vivo alento.
Depois de feita a escultura, e por um Deus acabada, obra não houve extremada como a humana criatura: ali para mais ventura (sendo o barro assaz terrível) alma lhe deu infalível, e me admira ver, que aquela alma, que ali fez tão bela Desse a um barro insensível.
Possível lhe foi fazer este Arquiteto divino participando do Trino aquela alma a seu prazer: para mais se engrandecer engrandeceu o insensível, desatando-se passível daquele sagrado nó, que apertava três, e só Um Deus, que lhe foi possível.
Foi grandeza do poder aquele querer mostrar sendo divino encarnar para humano vir nascer: e foi grandeza o morrer um Deus, que é todo portento; e se bem no Sacramento se adverte grande fineza, de seu poder foi grandeza Dar-se a si mesmo em sustento.