Portuguese poem
Quem da religiosa vida não se namora, e agrada
by Gregório de Matos (1636–1696)
Quem da religiosa vida não se namora, e agrada, já tem a alma danada, e a graça de Deus perdida: uma vida tão medida pela vontade dos Céus, que humildes ganham troféus, e tal glória se desfruta, que na mesa a Deus se escuta, no Coro se louva a Deus.
Esta vida religiosa tão sossegada, e segura a toda a boa alma apura, afugenta a alma viciosa: há cousa mais deliciosa, que achar o jantar, e almoço sem cuidado, e sem sobrosso tendo no bom, e mau ano sempre o pão quotidiano, e escusar o Padre nosso!
Há cousa como escutar o silêncio, que a garrida toca depois da comida pare cozer o jantar! há cousa como calar, e estar só na minha cela considerando a panela, que cheirava, e recendia no gosto de malvasia na grandeza da tigela!
Há cousa como estar vendo uma só Mãe religião sustentar a tanto Irmão mais, ou menos Reverendo! há maior gosto, ao que entendo, que agradar ao meu Prelado, para ser dele estimado, se ao obedecer-lhe me animo, e depois de tanto mimo ganhar o Céu de contado!
Dirão réprobos, e réus, que a sujeição é fastio, pois para que é o alvedrio, senão para o dar a Deus: quem mais o sujeita aos céus, esse mais livre se vê, que Deus (como ensina a fé) nos deixou livre a vontade, e o mais é mor falsidade, que os montes de Gelboé.
Oh quem, meu Jesus amante, do Frade mais descontente me fizera tão parente, que fora eu seu semelhante! Quem me vira neste instante tão solteiro, qual eu era, que na Ordem mas austera comera o vosso maná! Mas nunca direi, que lá virá a fresca Primavera.