Portuguese poem
Que néscio, que era eu então
by Gregório de Matos (1636–1696)
Que néscio, que era eu então, quando o cuidava, o não era, mas o tempo, a idade, a era puderam mais que a razão: fiei-me na discrição, e perdi-me, em que me pes, e agora dando ao través, vim no cabo a entender, que o tempo veio a fazer, o que a razão nunca fez. .
O tempo me tem mostrado, que por me não conformar com o tempo, e co lugar estou de todo arruinado: na política de estado nunca houve princípios certos, e posto que homens espertos alguns documentos deram, tudo, o que nisto escreveram, são contingentes acertos.
Muitos por vias erradas têm acertos mui perfeitos muitos por meios direitos, não dão sem erro as passadas: cousas tão disparatadas obra-as a sorte importuna, que de indignos é coluna, e se me há de ser preciso lograr fortuna sem siso, eu renuncio à fortuna.
Para ter por mim bons fados escuso discretos meios, que há muitos burros sem freios, e mui bem afortunados: logo os que andam bem livrados, não é própria diligência, é o céu, e sua influência, são forças do fado puras, que põem mantidas figuras do teatro da prudência.
De diques de água cercaram esta nossa cidadela todos se molharam nela, e todos tontos ficaram: eu, a quem os céus livraram desta água fonte de asnia, fiquei são da fantesia por meu mal, pois nestes tratos entre tantos insensatos por sisudo eu só perdia.
Vinham todos em manada um simples, outro doudete, este me dava um moquete, aqueloutro uma punhada: tá, que sou pessoa honrada, e um homem de entendimento; qual honrado, ou qual talento? foram-me pondo num trapo, i-me tornado um farrapo, porque um tolo fará cento.
Considerei logo então os baldões, que padecia, vagarosamente um dia com toda a circunspeção: assentei por conclusão ser duro de os corrigir, e livrar do seu poder, dizendo com grande mágoa: se me não molho nesta água, mal posso entre estes viver.
Eia, estamos na Bahia, onde agrada a adulação, onde a verdade é baldão, e a virtude hipocrisia: sigamos esta harmonia de tão fátua consonância, e inda que seja ingnorância seguir erros conhecidos, sejam-me a mim permitidos, se em ser besta está a ganância
Alto pois com planta presta me vou ao Dique botar, e ou me hei de nele afogar, ou também hei de ser besta: do bico do pé à testa lavei as carnes, e os ossos: ei-los vêm com alvoroços todos para mim correndo. i-los me abraçam, dizendo. agora sim, que é dos nossos.
Dei por besta em mais valer, um me serve, outro .me presta; não sou eu de todo besta, pois tratei de o parecer: assim vim a merecer favores, e aplausos tantos pelos meus néscios encantos, que enfim, e por derradeiro fui galo de seu poleiro, e lhes dava os dias santos.
Já sou na terra bem visto, louvado, e engrandecido, já passei de aborrecido ao auge de ser benquisto: já entre os grandes me alisto, e amigos são, quando topo, estou fábula de Esopo vendo falar animais, e falando eu que eles mais, bebemos todos num copo.
Seja pois a conclusão, que eu me pus aqui a escrever, o que devia fazer, mas que tal faça, isso não: decrete a divina mão, influam malignos fados, seja eu entre os desgraçados exemplo de desventura: não culpem minha cordura, que eu sei, que são meus pecados.