Versos Portuguese Gregório de Matos Reverendo vigário

Portuguese poem

Reverendo vigário

by (1636–1696)

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Reverendo vigário, Que é título de zotes ordinário, Como sendo tão bobo, E tendo tão larguíssimas orelhas, Fogem vossas ovelhas De vós, como se fôsseis voraz Lobo.

O certo é, que sois Pastor danado, E temo, que se a golpe vem de fouce, Vos há de cada ovelha dar um couce: Sirva de exemplo a vosso desalinho, O que ovelhas têm feito ao Padre Anjinho, Que por sua tontice, e sua asnia o tem já embolsado na euxovia; Porém a vós, que sois fidalgo asneiro, Temo, que hão de fazer-vos camareiro.

Quisestes tosquear o vosso gado, E saístes do intento tosqueado; Não vos cai em capelo, O que o provérbio tantas vezes canta, Que quem ousadamente se adianta. Em vez de tosquear fica sem pêlo?

Intentastes sangrar toda a comarca, Mas ela vos sangrou na veia d'arca Pois ficando faminto, e sem sustento, Heis de buscar a dente qual jumento Erva para o jantar, e para a ceia, E se talvez o campo a escasseia, Mirrado heis de acabar no campo lhano, Fazendo quarentena todo o ano: Mas então poderá vossa porfia Declarar aos Fregueses cada dia.

Sois tão grande velhaco, Que a pura excomunhão meteis no saco: Já diz a freguesia, Que tendes de Saturno a natureza, Pois os Filhos tratais com tal crueza, Que os comeis, e roubais, qual uma harpia; Valha-vos; mas quem digo, que vos valha? Valha-vos ser um zote, e um canalha: Mixelo hoje de chispo, Ontem um passa-aqui do Arcebispo. Mas oh se Deus a todos nos livrara De Marão com poder, vilão com vara! Fábula dos rapazes, e bandarras, conto do lar, cantiga das guitarras.

Enquanto vos não parte algum corisco, Que talvez vos despreza como cisco, E fugindo a vileza desse couro, Vos vai poupando a cortadora espada, Azagaia amolada, A veloz seta, o rápido pelouro:

Dizei a um confessor dos aprovados, Vossos torpes pecados, Que se bem o fazeis, como é preciso Fareis um dia cousa de juízo: E uma vez confessado, Como vos tenha Deus já perdoado, Todos vos perdoaremos Os escândalos mil, que de vós temos, E comendo o suor de vosso rosto Dareis a Deus prazer, aos homens gosto.