Versos Portuguese Gregório de Matos Saudades, que me quereis

Portuguese poem

Saudades, que me quereis

by (1636–1696)

Listen in the reader

Saudades, que me quereis, que tanto me atormentais? nunca a morte executais, sempre a morte prometeis? sem dúvida pretendeis minha pena ir dilatando, porque enquanto vou penando tendes, onde estar vivendo, e se acaso eu for morrendo, por força ireis acabando.

Mas nem por isso a meu ver matais menos sem matar, que um contino suspirar é um perpétuo morrer: o bem na lembrança ter, considerá-lo distante, um receio a cada instante, um susto a cada acidente não são provas do vivente, senão abonos do amante.

Vós sois, tirana saudade, sendo a memória instrumento verdugo do entendimento, e flagelo da vontade: acabo na realidade, respiro nas aparências, pois com tantas evidências vosso rigor me desalma, não despojado de uma alma, afligido em três potências.

Oh quanto menor tormento me deva o perder a vida, que para dor tão crescida já não há mais sofrimento: a pena com tanto alento, sem alento o coração parecerá sem razão, que uma mesma causa ordene, que viva, para que pene, e para ter vida não.